«Se tiver de fechar a Seleção numa bolha, vou recusar fazê-lo»

Seleção 03-05-2021 15:41
Por Miguel Cardoso Pereira

m entrevista a A BOLA, Fernando Santos afasta a possibilidade de a Seleção Nacional ficar fechada numa bolha na Cidade do Futebol, a partir de 27 de maio, quando está previsto o início dos treinos para o Europeu.

 

Em Budapeste, na Hungria, Portugal vai jogar com a equipa da casa num estádio previsivelmente cheio. Apesar de cheio de adeptos da casa, é um cenário que, creio, lhe agrade?

 

- Público é importante, sim. Mas, repare, vamos jogar num estádio com lotação prevista de cem por cento e nós vamos estar em bolha nessa fase da prova. E gerir uma bolha, consequência desta época de Covid-19, é uma das piores coisas que pode haver no futebol, você nem consegue imaginar.

 

- Não consigo.

 

- Às vezes nem eu consigo! Confesso que a única vez em que me senti realmente fatigado, fisicamente, mentalmente - ao ponto de ter chegado a casa e de me terem logo perguntado o que me tinha acontecido -, foi agora quando fomos a Itália e estivemos sempre em bolha: teste, jogo, treino, teste, jogo e por aí adiante, um cansaço brutal. Eu já estive em muitas bolhas aqui onde conversamos, na Cidade do Futebol, mas há muita gente em bolha nessas alturas. Nos hotéis não havia mais ninguém! Só nos víamos uns aos outros e isso é muito cansativo. Os primeiros dois dias fazem-se bem, ao terceiro já se sentem as irritações. Ademais, no final de época, tudo se torna ainda mais difícil.

 

- Mas pode ter de acontecer…

 

- Mas imagine, então, que estes jogadores, a grande maioria deles vindos de fora, para os quais é fundamental nestas alturas o contacto familiar, têm de entrar em bolha… eu não lhes posso retirar esse contacto familiar, não posso. Se tiver de entrar em bolha - e ainda que não seja esse o sentido que apontamos - não sei… Vamos imaginar que a dia 27 de maio, para quando está previsto o início dos treinos, eu tenho de chamar os jogadores para lhes dizer que têm de ficar aqui em bolha na Cidade do Futebol, sem saírem daqui até viajarmos para a Hungria, eu não vou fazer isso!

 

- Adia a concentração?

 

- Ah, pois adio! Se tiver de fechar a Seleção aqui a partir de dia 27, não faço isso! Claro que é possível fazer a bolha, sim, e respeitarei outras opiniões, mas eu não o farei, porque sei que estaria a fazer mal aos jogadores e que quando fossemos para a Hungria eles já não poderiam ver-se uns aos outros! Prefiro perder três ou quatro dias de treino, se tiver de ser, no prato da balança. O ideal é começar a 27 sem obrigação de bolha e os jogadores fazerem regime de clube, vão a casa, vêm treinar-se e, quando for para jogar com a Espanha, no primeiro particular, logo nos concentramos aqui, mas sem os retirar da vida familiar.

 

- É a experiência quem lho diz?

 

- A experiência da vida, sim, vai-nos dizendo estas coisas. Eu não digo uma coisa destas só por dizer. Eu treinei os grandes de Portugal, treinei os grandes da Grécia, fui selecionador da Grécia e sou-o de Portugal, portanto deem-me ao menos o benefício da dúvida. Nos clubes, o patrão é o clube, o dono. Aqui, na Seleção, nós não temos jogadores, o trabalho é diferente. Eles estão aqui no dia a dia, mas não são meus jogadores nesse sentido.

 

- É um espaço mais sensível, mais familiar?

 

- Não diria que familiar seja o termo. A questão é que no clube eu tenho trezentos e trinta dias para trabalhar com os jogadores, pelo que posso muito bem, ao longo de uma época, ir selecionado momentos para um jogador num dia, para outro, noutro; mas aqui tenho seis ou sete dias. Como posso fazê-lo? É preciso pensar de uma vez em toda a cultura de grupo.

 

- E nem essa é igual para todos, afinal.

 

- Em onze anos à frente de seleções tudo isso se vai afinando. E há casos muito práticos.

 

- Descreva-mos, então.

 

- Olhe, com a Grécia, por exemplo, a condição fundamental para os jogadores nem era ter o campo de treinos logo ali ou lado, ou saber se o hotel era bom ou só assim-assim, a qualidade da internet. Porque os gregos são assim, passam o dia ao telefone, é da cultura deles. Se a internet não fosse boa, ao segundo dia já havia problemas. Imagino que para outras seleções, os alemães, ou para os nórdicos, as exigências e as circunstâncias sejam outras, não sei quais. E nós também temos as nossas preferências.

 

- Quais são?

 

- No Euro-2016, Marcoussis foi ótimo para nós. Havia um local só para a Seleção, mas ali ao lado estava a seleção francesa de râguebi e na outra porta ao lado havia um espaço comum do hotel. E havia uma vila perto, para ir dar um passeio, desanuviar. Na Rússia, o sítio era fantástico, mas só lá estávamos nós e não havia nada ao pé…

 

- Por isso escolheu agora Budapeste para o estágio do Euro-2020?

 

- Uma das razões para ter escolhido a cidade, sim, pois podia ter escolhido um local de estágio fora de Budapeste, e até vimos muitos sítios, mas não quis repetir a ideia. Prefiro um sítio onde as pessoas estejam acessíveis. Para as famílias. Marcoussis era perto de Paris, por exemplo. Espero que em Budapeste isso possa repetir-se. Pode sempre dizer-se que as limitações e as distâncias são iguais para toda a gente, mas não é bem assim, porque, lá está, as culturas e as mentalidades são diferentes.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição impressa ou digital de A BOLA 

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