«Eu choro e toda gente chora...», Fred Melo Paiva, escritor e colunista, avista a conquista do Brasileirão pelo Atlético Mineiro ao fim de 50 anos

Brasil 30-11-2021 18:09
Por Pedro Cadima

A fé no título do Atlético Mineiro está ao rubro na região de Minas Gerais, e na sua capital de Belo Horizonte. É uma farra que promete ser muito chorada, emotiva e transcendente. Unicamente campeão em 1971 com Dadá Maravilha no elenco, o Galo atravessou a história recente privado da conquista mais desejada, o Brasileirão. Cinco décadas de esperança e desencanto, de vertigem e agonia, de delírio e sofrimento. Doeram muitas derrotas, partidas do destino e crueldades do campo, o adepto atleticano ressurgiu envaidecido em 2013 com a Libertadores ganha com Ronaldinho Gaúcho…E com Cuca também ao comando. Agora é Cuca mas com Hulk a mandar no campo. E a emocionar Reinaldo nas bancadas.

 

Mas ser Rei da América do Sul não era suficiente para amenizar tanto desconsolo ou fazer justiça com a história. Essa virá agora…depois de um conjunto de títulos sonhados, mas desviados dessa geração de sonho que passeou classe nos finais de 70’ e inícios de 80’s, composta por João Leite, Luizinho, Cerezo, Éder, Paulo Isidoro ou o grande Reinaldo, o ídolo maior do Galão da Massa, o seu mais furtivo goleador mas também mais elegante jogador, o Pelé do Galo, pelo que jogava, arte suave em movimento e infortúnios mil numa carreira tão bela quanto acidentada. Mas também uma voz da resistência em dias turbulentos impostos pela ditadura militar. Agora tudo se desenha para o Galo cantar a sua felicidade, despejar angústias e fazer a sua fervorosa nação de adeptos ensandecer na mais bonita catarse, tão própria do futebol, que eleva a dimensão surreal este momento.

 

Fred Melo Paiva, colunista afeto ao Galo, jornalista e escritor refinado nas suas palavras, traduz-nos excecionalmente o céu azul que se abre no Mineirão, já decididamente percecionado no que foram as sensações da vitória arrancada pelo Atlético sobre o Fluminense (2-1), que pode mesmo ter selado o título, caso o Flamengo não ultrapasse hoje o Ceará. Se o Mengão ganhar, ainda sobram três match points ao Galo para derrubar tanta malha opressora, poderes instaladores noutras épocas. Um somatório de fatores inibidores de importantes conquistas.

«Estamos perante um momento único. Mesmo que o clube volte a ganhar grandes títulos, que vença o que nunca conseguiu vencer, acho que dificilmente este momento, a conquista deste Campeonato, vai ser superada. Não é apenas uma longa espera, outros também a tiveram. O problema é como essa espera se deu. Como ela foi injusta e azarada. O Atlético é o único vice-campeão invicto do Brasil, em 1977. Depois aqueles roubos da década de 80 diante do Flamengo, ditados pela postura do Reinaldo, que se intrometeu na política, tornando-se um ícone contra a ditadura. É por essas circunstâncias que ganhar agora é muito especial», decifra Fred Melo Paiva.

«Passa-me um filme na cabeça, como na hora da morte. Lembramo-nos da infância, das derrotas e todo o sofrimento no Mineirão, é algo que mexe profundamente com as nossas emoções. O pensamento leva-nos por aqueles que partiram e já não viram o Galo campeão. Todos os atleticanos, sem exceção, choram esta conquista, é algo muito arrebatador. Eu chorei no último jogo e acordei a chorar. Toda a gente chora. É o resumo do que está a acontecer», evidencia.

 

«O Atlético nunca foi campeão em campeonato de pontos corridos, só por decisão. É curioso isto porque estamos numa grande série de vitórias e vemos o título acontecendo de jornada para jornada. É uma sensação permanente de vitória, que maravilhosamente se arrasta. Até temos o desejo que isto não acabe, agora que faltam três jogos. Não precisávamos de ser campeões, podíamos continuar neste estado de irmos sendo campeões. Nada é mais maravilhoso que ver este título ganhar estas nuances», relata, num exercício saído das profundezas da alma. Sublime e revelador.

 

«É um sabor de libertação e merecimento. Estamos celebrando também a geração dos 80’s, que não ganhou o título. Eles todos estão sendo abraçados, são reflexões que vão muito além do jogo, é um título que nos deixa sensíveis e mais chorões», confidencia, desenvolvendo o tema.

«O atleticano tem essa ligação forte com o merecimento. Poucas histórias dentro do desporto encontram o tamanho do merecimento do Atlético no que respeita ao Brasileirão. Merecemos por todas as injustiças, azares e até pela estatística, as vezes que quase chegámos lá. Ficamos a saber que valeu a pena, é a música que o estádio canta. Uma lição de vida e uma forma de lidar com os tempos atuais. A nossa trajetória não depende de títulos, fizemos da luta o nosso caminho. Agora premiada com um estádio cheio de 60 mil pessoas. Abraças e beijas, não consegues ficar de máscara. Há erros claros, há uma questão sanitária a preservar, mas há aqui uma beleza única», desabafa, desfiando a curta-metragem de um dia memorável, de ardente exaltação por todos os cantos alvinegros de Minas.

 

«Acho que choraríamos no Mineirão, estamos sensíveis e vamos derreter-nos em lágrimas. Eu olho para a arquibancada e parece uma sessão de fé da Igreja Evangélica. Gente atirando-se para o chão, outros de joelho, outros com mãos apontadas ao céu. Imagino essa catarse coletiva. A partir do Mineirão vamos peregrinar à nossa Meca, a sede do clube. Vamos amanhecer na praça central de Belo Horizonte, onde acontecem as nossas comemorações. Depois há almoço no bar do Salomão e depois de curadas as nossas ressacas pagaremos as nossas promessas. Eu vou caminhar de Belo Horizonte até Curvelo, parte do trajeto do grande Sertão Veredas, o célebre livro de Guimarães Rosa. Muita gente vai fazer tatuagens, invadir igrejas e cemitérios, dar voltas a quarteirões, muitos nus, outros de joelhos. Somos grandes pagadores de promessas», ressalva.

 

Hulk, um ídolo eterno

 

Fred Melo Paiva curva-se à influência de Hulk, amado no FC Porto, campeão em Portugal, na Rússia, na China. Agora perto de o ser no Brasil. No universo do galo alguns meses bastaram para ser amado e glorificado. E não são só os golos que promovem o endeusamento. O festejo do golo da vitória sobre o Fluminense foi um tributo a Reinaldo, o rei.

 

«Sempre esperei que a geração dos oitentas fosse abraçada pelas novas gerações. Os jogadores são muito jovens e alienados na maioria das vezes, não sabem muito, a não ser jogar futebol. O gesto do Hulk foi das coisas mais bonitas que vi e mais me emocionaram na história recente do galo. Ele ter imitado Reinaldo naquele que pode ter sido muito bem o golo do título….sem palavras. É um sonho ver Hulk reconhecer a figura do Reinaldo. Além de grande jogador, de muito forte, ergueu o punho cerrado num momento histórico. Foi incrível, mais ainda com Reinaldo comentando o jogo, ouvir os dois em contacto em declarações de amor. Hulk foi mesmo enorme ao fazer o que fez. Ele acrescentou a tudo o que estava acontecendo, a um título que se aproxima, a um golo decisivo, uma camada de entendimento histórico para as novas gerações, de combatividade e expressão política», frisou.

 

«Foi muito bondoso o Hulk, esse gesto transforma-o num personagem ainda mais especial e faz do Reinaldo alguém ainda mais especial para as novas gerações. Esse golo com essa carga simbólica foi a cereja no topo do bolo», garante.

 

«Ele chegou como um reforço que parecia distante da nossa realidade, distante do Brasil, aliás. Não tinha tido carreira por cá, chegou envolto em muita desconfiança, apesar de história feita na Europa. Eram, sobretudo, incertezas, pela idade avançada, um salário muito alto, um questionável investimento. Todos lembrávamos a chegada de Ronaldinho que acabou por dar muito certo no Galo, transformou-se em grande ídolo e ajudou na conquista da Libertadores. A gente não podia imaginar que o Hulk se transformasse em tão pouco tempo num jogador tão importante e decisivo. Os números ilustram isso. É, de facto, o grande responsável pelo que o Atlético está a viver», elogia Fred Melo Paiva, expondo a natureza da idolatria atual sobre o atacante de 35 anos. As bancadas fervem sempre que Hulk toca na bola, arranca ou disfere um remate.

 

«Nem é preciso confirmar o título, como disse o Reinaldo o Hulk estará eternamente nos nossos corações, ídolo para sempre, inscreve-se na prateleira de Ronaldinho, Vítor, talvez também Cerezo e Éder. Só uma prateleira abaixo de Reinaldo, porque este é inatingível, personifica a história do Atlético, uma história de altos e baixos, do que merecia e não conseguiu. Acaba uma história trágica, porque Reinaldo vicia-se em cocaína mas consegue escapar. Mas foi o nosso Maradona ou Messi, por azar o mundo não viu tudo o que podia de Reinaldo», lamenta Fred Melo Paiva, focando-se novamente no homem do momento.

 

«Há ainda algo que me fascina em Hulk, é um tipo bem especial. Vê-se pelo seu sorriso, a maneira como atende os adeptos que pedem uma foto. Ele lida com a celebridade no extremo oposto a Neymar, é uma estrela sem o ser. Isso casa com o perfil do atleticano. Ele tem a humildade e o recolhimento do mineiro, vejo um casamento de almas. Aqui não temos dúvidas que ele é uma pessoa maravilhosa e é surpreendente como ele se parece com a gente. Acha que o Hulk nunca mais vai embora, veio para ficar, mesmo deixando de jogar ficará em Belo Horizonte», enfatiza.

 

Reinaldo rendido a Hulk

 

«Que festa bonita e emocionante no Mineirão. O Galo será campeão e o Hulk está como nosso mítico super herói. Um atleta fisicamente privilegiado e um profissional disciplinado que se cuida muito. E é também um jogador inteligente, habilidoso, que reúne as grandes virtudes de um craque. Virou ídolo do Galão da Massa», expressou Reinaldo em conversa breve com a A BOLA.

 

João Leite fala da figura e do carisma

 

João Leite, lendário guarda-redes do Atlético Mineiro, pai do benfiquista Helton Leite, que interrompeu longa passagem pelo Galo para defender a baliza do V. Guimarães, alinhou nos elogios a Hulk.

 

«Hulk chegou para ser figura, vive um grande momento, veio com muito compromisso. É um jogador que gerou um carinho particular com os nossos adeptos, pensa neles, tem um carisma diferente da maioria. Quando o onze do Atlético é anunciado no estádio e se ouve Hulk, é uma perfeita loucura. E se marca um golo é incrível o barulho no Mineirão: ‘Hulk, Hulk, Hulk’.»

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