Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira (artigo de Manuel Sérgio, 367)

Espaço Universidade 16:13
Por Manuel Sérgio

A notícia rebentou, há dias, como uma bomba: “Vieira e Pinto da Costa passaram férias juntos”. E a notícia, neste Setembro tristonho e cinzento, dizia mais – “que tudo foi planeado com o maior secretismo, com a ajuda do dono da equipa de ciclismo W52, Adriano Quintanilha, amigo de ambos”. Espalhando em torno um olhar onde não faiscava o mínimo de tolerância, um freguês habitual do meu barbeiro, lançou este exclamação: “Que barbaridade!”. Cedi à sedução do tema e entrei na conversa: “Mas… barbaridade, porquè?”. E ele, um jovem dos seus trinta anos, esboçando com os dedos a ondulação de quem leciona, acrescentou: “Passaram anos e anos a insultar-se e, agora, são amigos?”. E fixou-me com os olhos rutilantes de faccioso, enquanto murmurava: “Inacreditável!”. Pensava eu, em tempos idos, que o desporto pudesse transformar-se num espaço de conciliação dos opostos. Pensava eu… e assim pensavam também alguns pioneiros do desporto, em Portugal, que eu ainda conheci. O mundo, que Deus fez, é exemplar, na sua evolução: quanto mais progride, mais se complexifica e, quanto mais se complexifica, mais se unifica. Sei de cor uma das frases geniais de Teilhard de Chardin: “Tudo o que sobe converge”. E assim a noosfera (o espírito, a cultura) não surge, clareada a bruma dos primeiros momentos, como um epifenómeno da matéria, mas o ponto supremo, o ponto omega da Evolução. Em Teilhard de Chardin, se bem que a sua Evolução já tenha sido acusada de “demasiado poética”, até ao aparecimento do ser humano a Evolução teve sempre um sentido e com inteiro sucesso: foi sempre progressiva e ascendente e convergente, numa imparável caminhada para o espírito. Ao invés do que defende J. Monod, no seu livro O Acaso e a Necessidade, escreve Teilhard de Chardin, no seu Le Phénomène Humain:” ou a Natureza se fecha às nossas exigências de futuro e então o Pensamento, fruto de milhões de anos de esforço, asfixia-se, nado-morto, num Universo absurdo (,,,) ou existe uma saída (…). Mas então esta saída, para que aceitemos meter-nos por ela, tem de dar sem restrição para espaços psíquicos ilimitados, num Universo em que possamos cegamente fiar-nos e em que sejamos todos irmãos”.

                   

Pecados todos nós temos. E, diante da mulher adúltera e de um grupo ruidoso de sanguinários, transbordando ódio, Jesus não titubeou: “De todos vós, quem nunca pecou, seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra”. E assim desmantelou Jesus, para os que n’Ele acreditam, uma das alíneas fundamentais da lei moisaica. Aliás, ainda em vigor, nalguns países muçulmanos. Tanta estupidez chega a exasperar! Mas, hoje, os grandes clubes desportivos europeus não deixam de lembrar, com frequência, o espírito que animou, designadamente no dealbar do século XX, o seu nascimento: um espírito de tolerância e de encontro e de acolhimento – para jovens e adultos, para sãos e doentes, para homens e mulheres… tenham elas e eles a ideologia e a religião que tiverem! Ainda há poucos dias, a equipa feminina de futebol do Benfica venceu o Twente (4-0), campeão neerlandês em título e a mais titulada equipa dos Países Baixos. E, com a aludida vitória, garantiu uma presença histórica (porque inédita no nosso futebol feminino) na fase de grupos da Liga dos Campeões. Na impossibilidade de multiplicar as transcrições, aí deixo a exclamação emocionada da treinadora do Benfica, Filipa Patão: “Foi à Benfica!”. Não agradando embora a todos os paladares, tem progresso vertiginoso a afirmação que “o futebol é uma religião sem Deus”.  Mas, se não tem Deus, pode ser religião? O Teixeira de Pascoaes, na sua Arte de ser português. escreveu que “não há sentimento digno da nossa alma que, pela sua própria tendência de aperfeiçoamento, se não torne religioso”. Para mim, a religiosidade parece-me uma irredutível manifestação do sagrado e portanto de Deus. “Para Mircea Eliade, o homem tanto no universo como na sociedade é um pontifex, um construtor de pontes entre o conhecido e o desconhecido, o visível e o invisível. o compreensível e o inominável” (AA.VV., Mircea Eliade, o Reencontro com o Sagrado, Edições Nova Acrópole, Lisboa, 1993, p. 55). E, por isso, na vida (a vida é um movimento que não cessa nem retrocede) não nos deverá causar espanto que duas pessoas desavindas, no passado, criem, no presente, “pontes” para um encontro fraterno.

               

Nem Pinto da Costa, nem L.F.Vieira, são dois reformistas ascéticos. Pelo contrário: a sua atuação, respetivamente no Porto e no Benfica, sem assumir alguma vez o significado do disfarce tentou questionar, reorientar, transformar. A sua “praxis” foi inovadora e deu aos seus clubes um rosto novo. Pinto da Costa teve, em seu favor, três treinadores geniais: José Maria Pedroto, Artur Jorge e José Mourinho. José Maria Pedroto era um sábio que “sabia que não sabia” e onde descobrisse novidade aí estava ele, com uma curiosidade e uma humildade inusuais. Teria sido, se a morte o não levasse tão cedo, um dos grandes treinadores da história do futebol. A revolução que ele e Pinto da Costa levaram a cabo no Futebol Clube do Porto deveria merecer um sério estudo universitário. Dois “agentes do futebol”, como Pinto da Costa e José Maria Pedroto e em trabalho diligente e solidário, nem com a lanterna de Diógenes seria fácil encontrar. O Artur Jorge, sendo Pinto da Costa o presidente do F.C.Porto, seria sempre o natural sucessor de José Pedroto, pois que Pedroto não escondia uma admiração incontida pelos méritos de Artur Jorge, seguramente únicos nesse então. Um dia,  risonhamente filosofando, ainda me questionou: “Ora diga-me cá, o Artur é, ou não, para si, o treinador de futebol do futuro?”. E foi, com ele, que de facto o F.C.Porto ganhou a sua primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus. O José Mourinho tem um inigualável currículo, no cotejo com qualquer treinador português. Intelectualmente, é um superdotado e tinha, no início da sua carreira, como treinador, uma impressionante cópia de argumentos que jogavam em seu favor: estudioso, informado e poliglota. Nesse então, não tinha rival… nem possivelmente no estrangeiro! Foi considerado, se não estou em erro, em 2010, o melhor treinador do mundo! E, para mim, ainda hoje é o melhor treinador do mundo… numa “circunstância” que esteja à sua altura! Luís Filipe Vieira mantém Jorge Jesus como amigo e confidente. Jorge Jesus é, hoje, um dos melhores treinadores do mundo. E passou a estudar. Podem crer…

               

Excetuando pouquíssimos, não acredito, nunca acreditei que os treinadores portugueses saibam mais de futebol que os treinadores estrangeiros. Mas, porque o Desporto só como ciência hermenêutico-humana pode estudar-se e praticar-se, reconheço que há qualidades humanas, típicas do “homem português”, que revalorizam o trabalho de um treinador desportivo. É unânime a convicção que a diferença do rendimento “per capita” entre países desenvolvidos e mais desenvolvidos é imputável às diferenças, no âmbito do conhecimento. Os cada vez mais elevados padrões de desenvolvimento radicam nas áreas e vias específicas do conhecimento, mormente do conhecimento científico. Atravessamos, atualmente,  a “idade hermenêutica da razão, onde o termo “mundo” deixou de significar o cosmos físico, como na tradição grega, ou o universo da criação, como na tradição judaico-cristã. “Mundo é agora uma determinada maneira de ver  (de interpretar) a realidade. Ou seja, uma cultura veiculada pela linguagem (…). No modo de entender da filosofia hermenêutica, não temos, acerca do mundo, mais que a nossa interpretação” (Jorge Coutinho, Filosofia do Conhecimento, Universidade Católica Editora, Lisboa, 2003, p. 170). É verdade que, trocando o transcendente pelo imananente, surgem outras mundividências e outros valores. Mas, no fim, vêm dizer-nos, como o fez Michel Foucault, a fechar As Palavras e as Coisas: “o homem está em vias de desaparecer”. Um professor de Michel Foucault, Luís Althusser, pleiteava por esta “verdade” que ele julgava incontroversa: “A história é um processo e um processo sem sujeito” (Réponse à John Lewis, Maspéro, Paris, 1974, p. 31).

 

Enfim, se o transcendente desaparece, o que vem a seguir passa uma trágica certidão de óbito a tudo o que desfataliza a História. Não é verdade que a formidolosa tecnologia nuclear já acumulou os meios suficientes para a destruição de toda a humanidade?... Peço desculpa de ter-me perdido em considerações de vária ordem. É que eu só queria deixar escrito que aplaudo, às mãos ambas, o que o Desporto também é, acima de tudo: reencontro fraterno e amigo entre pessoas. Oxalá os Srs. Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira o tenham dito também, mesmo sem o dizerem, à Comunicação Social. E a cada um de nós…   

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto.

    

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