Razões do insucesso dos jovens futebolistas (artigo de Jorge Castelo)

Espaço Universidade 08-09-2021 15:13
Por Jorge Castelo

Nas vésperas de se iniciar a época desportiva, no quadro de uma certa normalidade social, importa refletir as razões da elevada percentagem de jovens que não acedem a patamares superiores desta modalidade. Sendo mais evidente ao nível júnior, sénior e profissional. E mesmo quando alcançam um escalão formativo superior, manifestam dificuldades em dialogar com os requisitos inerentes ao treino/competição. Analisando algumas dessas razões é possível limitar-se os impactos negativos dos seus efeitos.

 

A família

 

1 Múltiplas gerações de jogadores crescem sob estratégias familiares que promovem em excesso a autoestima e a autoimagem, iludindo-os. Enfatizam que podem concretizar tudo na vida, porque são especiais. Acrescem os falsos profetas do futuro: os olheiros. Alguns desses jovens acedem a clubes não porque merecem, mas influenciando quem decide. Em vez de entenderem a importância de ajustar as reais capacidades do jovem, relativamente a clubes com outras exigências e condições, em vez da dimensão mediática.

 

Quer se queira ou não, os jovens jogadores não poderão ser tudo o que pretendem ser. Admitir este facto é demolidor. Contudo, significa que o jovem percecionará a envolvência do futebol de uma outra forma, refletindo melhor o que observava antes. Treinando e competindo aquém ou além das suas reais possibilidades e multiplicando todas essas horas por alguns anos, subsistirá um valor humano diluído e desperdiçado no tempo. Pergunta-se o que teria sido se tivesse aproveitado as oportunidades fruto das suas possibilidades? Talvez 5 ou 10 vezes mais, alicerçada na estrutura de uma dimensão coletiva.

 

A maioria destes jovens quando atingem a idade adulta, penetrando no mundo real, num ápice descobrem que não são tão competentes nem especiais como lhe diziam. Os familiares e o tal profeta não conseguem que eles acedam às etapas de formação subsequentes ou ao profissionalismo. Nada ganharam por não terem sido os melhores e, simplesmente, não conseguem ter o que querem. A sua autoimagem é destruída num instante, diminuindo a sua autoestima, quando comparados aos jovens da sua geração ou das anteriores, que se prepararam num ambiente real de treino/competição e sob um sério clima de exigência em função das suas capacidades.

 

Os jovens jogadores evoluem mais rapidamente se tiverem sob ambientes propícios e compatíveis, dialogando com exigências próprias às suas capacidades. Nada se ganha caso a esconder as vulnerabilidades de cada um, em vez de estas serem expostas, no sentido de as debelar ou, no mínimo, as diminuir. E, simultaneamente, beneficiar das suas margens potenciais de desenvolvimento. Para que se possa encontrar o caminho, importa estabelecer uma relação profunda com a verdade. O que cada jovem jogador tem do seu lado é fazer o melhor que sabe, e quando não é suficiente há que faze-lo melhor. O carácter de um jovem é ditado pela verdade que ele consegue tolerar.

 

O mérito

 

2 Outro fator que retroalimenta falsas noções das capacidades futebolísticas dos jovens advém das instituições desportivas (federação, associação e clube). Atribuindo por exemplo medalhas a todos, independentemente de ser último ou primeiro. Concede-se o mérito a todos, mesmo a quem não merece. Desvaloriza-se a medalha e a recompensa, em função daqueles que trabalharam duro para atingir o objetivo para que se preparam, os quais reduziram as suas incapacidades e modelaram as suas competências.

 

Tendo origem nos primórdios da humanidade, a competição é parte da vida dos seres humanos, lutando pelo mesmo objetivo. No caso do futebol está implícito o imaginário da dimensão estratégico/tática da guerra. Contudo, com o desenvolvimento da sociedade aperfeiçoou-se o senso, a ética e a consciência moral, criando-se e respeitando-se os valores intrínsecos do desporto. A competição gera uma satisfação externa ganhando ao adversário, mas também interna fazendo o melhor de si próprio, superando o máximo que poderiam realizar. E quando esse máximo não foi suficiente, então é essencial voltar a preparar-se com maior afinco e competência.

 

Se a intenção das instituições é que os jogadores não se sintam envergonhados e desapontados, muito mais sentirão tais amarguras quando recebem algo que definitivamente não merecem. Insistir nestas falsas noções de mérito terá impactos na vida destes jovens em diferentes domínios, pois apercebem-se de que os méritos conseguidos e o valor efetivo das suas prestações, do seu esforço e comprometimento não se coadunam com a realidade. Somente mais tarde entendem que outros se prepararam empenhadamente, os quais não se sentem recompensados com o seu esforço. Estes sinais contraditórios não podem fazer parte do crescimento e maturação dos jovens jogadores, pois não compreendem as diferenças entre ganhar ou perder.

 

A intervir-se no sentido de equilibrar os pratos da balança, as instituições rapidamente cedem a simplismos absurdos, não entendendo a complexidade das questões envolventes. Oferecendo um mau exemplo à sociedade, cedendo por razões ideológicas, pedagógicas ou psicológicas, na defesa dos menos capazes. Deveriam sim recentrar a ideia na preparação dos jovens para a vida adulta. Tais condutas terão um impacto negativo, nunca os habilitando a se superarem, mesmo para além da sua atividade desportiva. Os jovens erradamente percecionam que tudo lhes vai ser oferecido, não sendo necessário qualquer esforço para o conquistar.

 

As instituições desportivas têm de defender o mérito, a verdade desportiva e desenvolver estratégias organizativas das competições. Equilibrando e moldando os quadros competitivos, de modo a não evidenciarem discrepâncias injustificáveis no resultado final dos jogos. A competição terá pouco sentido, ao verificar-se amplas diferenças entre as equipas em confronto, em que a imprevisibilidade do resultado final terá de ser uma constante.

 

As redes sociais

 

3 Os jovens crescem no mundo das redes sociais (Facebook, Instagram, etc.), sendo competentes na colocação de filtros. Evidenciam que a sua vida é impressionante e incrível, embora no seu íntimo possam estar deprimidos com reduzida autoestima. Todos parecem que são fortes entendendo tudo, mas a realidade é que há pouca resiliência, sendo que a maioria dos jovens não entende o que lhes está a acontecer.

 

A utilização das redes sociais e a troca constante de mensagens possibilita que os jovens libertem várias substâncias desenvolvidas pelo cérebro, sendo a principal denominada de dopamina. Esta substância no sangue produz efeitos maravilhosos: mais foco, motivação e memória. Ao receber-se uma mensagem cria-se uma sensação (positiva, negativa ou neutra). Quando o jovem se sente stressado ou deprimido envia 10 mensagens a 10 amigos, de modo a melhorar essa condição quando recebe uma resposta.

 

A dopamina é exatamente a mesma substância química que faz as pessoas sentirem-se bem quando se fuma ou bebe, por exemplo. Sendo altamente viciante. Existe uma geração que tem acesso a um entorpecimento viciante, ajudando a lidar com o stress e a ansiedade dos jovens infelizes. Isso torna-se um padrão cerebral programado para o resto das suas vidas. Quando sofrem um stress significativo, eles não voltam para si próprios mas ao telemóvel.

 

Ao estar-se constantemente ligado aos dispositivos e meios de produção de dopamina, esta torna-se cada vez mais intrincada à medida que os jovens vão crescendo. Muitos deles não conseguem formar relacionamentos profundos e significativos, sendo superficiais. Não contam com os seus amigos nem se suportam neles. Divertem-se com eles, mas sabem que se algo melhor surgir, simplesmente desligam. Não tendo mecanismos para lidar com o stress e quando este aparece, eles voltam às redes sociais sentindo um alivio temporário.

 

Este ciclo viciante cria condições para que os jovens jogadores se tornem rancorosos, ressentidos e arrogantes, ou seja, um pacote absolutamente patológico. Esta estranha dinâmica do sistema existencial entre o julgamento social e a vulnerabilidade humana é a principal causa do sofrimento, do fracasso individual e da responsabilidade que deveriam saber adotar.

 

Evidenciar o que cada um realmente é será mais forte do que aquele que é forjado na base do que não é. No mínimo o jovem terá um lugar sólido para se afirmar, um lugar onde repousa a sua consciência, uma vida real e relacionamentos profícuos, em vez de se torturar com o número de likes e de seguidores. O destino de cada jovem depende de como este se organiza e toma decisões, sendo genuíno, ajudando os outros que lhes estão conectados. Mais vale pegar no seu fardo de modo adequado do que reclamar e responsabilizar os outros das suas próprias incapacidades.

 

A impaciência

 

4 A impaciência é formatada em virtude de se viver num mundo que gera uma sensação de gratificação instantânea, do que se procura ou realiza. Compra-se algo e chega no dia seguinte. Para ver um filme não é necessário verificar o horário do cinema, compra-se o filme. Tudo o que se pretende é gratificação instantânea. Exceto a satisfação no processo de treino, no prazer de jogar futebol, bem como reforçar relacionamentos, porque não existe nenhuma aplicação digital para isso.

 

Ao cumprir-se um calendário competitivo, em que os resultados finais dos jogos seriam imprevisíveis, os jovens jogadores teriam a possibilidade de dialogar com a expectativa, a ansiedade, o medo e os níveis de prontidão desportiva exigíveis para vencer o adversário. Caso a preparação para o jogo não contenha as suas especificidades identitárias, os jovens irão sentir-se desconfortáveis, confusos e desordenados por não ter aprendido e assimilado os mecanismos sociais de confrontação.

 

É igualmente paradoxal que jogadores com enormes capacidades de decisão/ação, por vezes desistem rapidamente, porque não sentem que estão a ter impacto social, isto é, a gratificação instantânea. Querem chegar rapidamente ao cume da montanha, (ao alto nível), mas não aprenderam o que realmente interessa e a serem pacientes. Sentirem prazer e realização no que fazem. Ampliando a alegria e a autoconfiança, a autoestima e a sua imagem através de um conjunto de capacidades cuja maturação exige tempo.

 

É sempre possível agilizar certas partes dessa capacidade, mas no seu conjunto é árduo, longo e difícil, não pedindo ajuda para assimilar esse conjunto de capacidades o jovem irá cair da montanha. Sendo um perigoso adversário à própria essência à formação de uma equipa, na qual cada jogador encontre no treinador e nos diferentes colegas o que lhe falta para ser mais capaz. Ganhando confiança das capacidades adquiridas e sentindo-se mais seguro de modo a ajudar e a interagir com os outros. Haverá gerações que passam pela vida nunca encontrando realmente a alegria e o prazer na prática do futebol.

 

O ambiente

 

5 Todos os seres humanos tendem a ampliar as suas capacidades quando estão envolvidos em ambientes que os inspiram a serem cada vez mais capazes. Para tal existem três aspetos: o propósito ou a causa que se pretende concretizar, o como se irá materializar, isto é, os processos a operacionalizar e o produto, ou seja, a performance desportiva com um valor diferenciado das outras equipas.

 

Não importa aquilo que se realiza, mas sim a razão dessa realização, sendo uma prova tangível do que faz. Assim, uns definem-se pelo que fazem, outros definem-se porque o fazem. Logo, o que poderá diferenciar os treinadores não é o que fazem, mas sim porque o fazem, e se os jogadores acreditam no que este acredita, serão atraídos como se fossem o próprio treinador.

 

Importa construir laços de confiança, capacidade de cooperação, lidar com um mundo digital, encontrar mais equilíbrio, superar a necessidade de gratificação instantânea, apreciar a alegria, o prazer, o impacto e a satisfação que se obtém de trabalhar duro em algo, por muito tempo que não poderá ser realizado em ganhos a curto prazo, mas sim com a vida a longo prazo.

 

A confiança nasce pela constante e consistente utilização de mecanismos onde se fomenta grandes e pequenas interações. Ligar o telemóvel no balneário evita que os jogadores falem uns com os outros antes e depois do treino, não se interessando pelos problemas dos outros. Importa gerar ambientes onde todos se sintam seguros, expressando a sua força, as vulnerabilidades e os medos. Há que encontrar o equilíbrio entre a vida e a tecnologia.

 

O ambiente não deverá promover que os jogadores se sintam sós e isolados. Mas também jamais poderá acontecer que alguns jogadores sintam o sucesso como se fosse somente deles próprios e não da equipa. Mesmo que tenham sido considerados os que mais contribuíram para tal sucesso. Esse sucesso terá sempre de ser partilhado pelos restantes colegas, porque na realidade a performance no futebol é alavancada pelos outros que jogaram ou que, simplesmente, participaram no processo de treino da equipa.

 

O treinador

 

6 Contrariamente ao que alguns ainda pensam, a formação prática/teórica dos treinadores é vital na eficiente concretização do processo de crescimento/maturação dos jovens jogadores. A ideia, os conceitos e os princípios de jogo a induzir no processo de treino/competição irão modelar atitudes, decisões e as ações dos jogadores. Desenvolvendo-os ou estagnando-os, em cada etapa formativa.

 

Repetindo-se sistémica e coerentemente métodos de treino, induz-se adaptações específicas nos mecanismos neurais e funcionais dos jovens jogadores, numa direção particular. Assegurando atitudes e comportamentos de ordem individual e coletiva, bem como desvios criativos e imprevisíveis, os quais se adaptam eficazmente às conjunturas estratégico/táticas geradas pelo processo de treino/competição.

 

Os treinadores utilizam diferentes metodologias, havendo assim, vários caminhos para perseguir o mesmo objetivo. Contudo, quando a equipa não consegue melhorar os seus níveis de rendimento, os treinadores fazem uma de duas coisas: realizam mais do mesmo ou fazem-no cada vez menos. O que raramente se observa é fazer diferente. Existe assim uma visão limitada dos problemas, ou seja, de miopia mental ou défice metodológico.

 

Os treinadores ao não exporem voluntariamente os jovens futebolistas a situações que estes evitam e receiam, sentindo-se desconfortáveis, jamais serão capazes de lidar com tais situações. Ficam assim impossibilitados de conhecer verdadeiramente os seus limites, como superá-los e atingir os seus objetivos. Haverá jogadores que poderiam ser mais capazes se, desde o início da sua formação, no quadro de uma verdadeira estrutura de valor, não tivessem sido protegidos dos seus medos, testando os seus limites.

 

Os jovens jogadores terão de enfrentar a realidade constituída pelo binómio treino/competição, dialogando com o desconhecido ou o medo, tornando-se mais fortes e resilientes perante qualquer que seja o resultado atingido. Quantos jogadores ao chegarem a uma certa idade percecionam que se tivessem sido mais empenhados, bem como tivessem sido envolvidos em ambientes que os expusessem a ousar os seus limites, poderiam ter atingido níveis de desempenho que no momento evidenciam.

 

O treinador terá de ser inovador e inspirador, entendendo as competências específicas de cada jogador, bem como as tendências evolutivas do jogo. Contudo, modificar a ideia de jogo ou a metodologia de treino não representa por si só inovação, pode ser simplesmente novidade. E esta nada produz para a transformação da equipa, senão um impacto imediato que rapidamente se esmorece.

 

Por fim, a UEFA impõe o fair play financeiro nas equipas profissionais, de modo a estabelecer algum tipo de equilíbrio entre estas. Questiona-se: haverá algum tipo de fair play quando clubes com melhores condições retiram os jovens jogadores com alguma qualidade a outros clubes de menor dimensão? O que as análises têm demonstrado é que a maior parte desses jovens, após uma ou duas épocas desportivas, são convidados a sair, evidenciando uma taxa residual de utilização competitiva. De um pretenso sucesso o jovem passa rapidamente ao insucesso.

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