«Demorávamos seis horas para jogar em casa»

A BOLA FORA 06-09-2021 15:09
Por Tânia Ferreira Vítor

Conheci o Fábio e a Sara no Algarve. Gente boa, humilde e divertida. Esta entrevista já estava prometida há anos, mas aproveitei o aniversário dos 36 para falar com o médio português Fábio Espinho, capitão do Feirense.


- À hora que te ligo, o que estás a fazer?
- Acabei de treinar e depois da entrevista vou almoçar. Ainda estou no carro, o treino demorou mais do que é costume.

 

- Fizeste 36 anos a 18 de agosto. És a prova de que o futebol português tem muito a ganhar com jogadores experientes?
- Cada vez mais acho que a idade é só um número. Se tivermos uma vida regrada e fizermos tudo o que um atleta deve fazer, podemos prolongar a carreira por uns bons anos. Também tem ajudado não ter tido lesões, é fundamental. E nos treinos tento aplicar-me ao máximo para corresponder nos jogos. Costumo treinar forte, os meus colegas já sabem que elevo a fasquia. Assim, têm de me superar ou no mínimo acompanhar para não dar azo à conversa de que estou velhote [risos].


- Os mais novos olham para ti como o cota do balneário?
- Este ano houve uma mudança de paradigma no Feirense. Houve uma grande aposta nos jovens; salvo erro temos sete ou oito jogadores da formação na equipa principal, o que também é bom. Sinto que eles me respeitam bastante, mas deixa-me dizer que eu tenho uma forma de estar muito jovem, percebes? Eu tento adaptar-me a eles e eles a mim e com isso não se nota diferença de idades. Tenho um bom sentido de humor, tento fazer algumas brincadeiras e eles alinham. De vez em quando, tratam-me por cota ou velhinho, coisas normais no futebol. Temos um bom ambiente.


- O David Simão disse-me que gostas de dançar no balneário e de pôr música…
- É verdade. Sou divertido e gosto de brincadeira no balneário. Mas não vou mentir: já fui muito mais ativo do que sou agora. O facto de sermos assim, por vezes baixa a barreira. Ou seja, damos azo a outras coisas e temos de saber dosear. Continuo a brincar e a dançar como o David disse e bem, mas não tanto como no Boavista.


- É desse espírito de equipa que vais ter mais saudades?
- Sabes, jogo futebol há trinta anos e sei que vou ter saudades de tudo: do balneário, do pré-jogo, da ansiedade e das borboletas na barriga. Só me lembro da minha existência a jogar futebol - comecei no formação do FC Porto com seis ou sete anos. Mas tento não pensar no fim, tenho receio de me desmotivar. Um dos truques para isso não acontecer é criar objetivos e marcas pessoais para continuar a lutar por alguma coisa, mesmo com 36 anos. Assim despisto o pós-futebol e tento viver o dia a dia sem pensar na reforma. Andarei aqui enquanto estiver bem fisicamente.


- A meta é a subida de divisão com o Feirense?
- Vim para o Feirense com esse objetivo, mas infelizmente ainda não conseguimos. A primeira época foi muito positiva, mas o Covid-19 quebrou-nos a reta final e foi pena, porque estávamos bem encaminhados. No ano passado, lutámos até ao fim, mas infelizmente também não conseguimos. Voltar à Primeira Liga seria um sonho. Este ano, o investimento foi mais direcionado para a aposta nos jovens e não tanto para a subida. Mas tudo é possível… Começámos bem e vamos ver no que dá. A Liga 2 é muito competitiva e o campeonato é longo.  


- E o que pensas fazer depois de fechar este capítulo?
- Gostava de ficar ligado ao futebol. Já tenho quase finalizado o segundo nível de treinador e imagino a minha vida perto do relvado. Foram muitos anos nesta área e confesso que não seria fácil ter de trabalhar numa outra coisa, mas se tiver de ser arregaço as mangas e vou à luta. Mas espero ter a minha oportunidade.


- A tua primeira aventura no estrangeiro foi no Ludogorets da Bulgária, onde em duas épocas (de 2013 a 2015) fizeste quase 100 jogos. Como surgiu esse interesse aos 28 anos?
- Olha, foi mesmo uma estrelinha a dizer que eu tinha de ir para a Bulgária. Eu recebi a proposta, mas não quis ir, porque tinha mercado em Portugal e, além disso, a minha filha tinha acabado de nascer. Nunca tinha saído de Espinho, porque joguei sempre no Norte, a Sara também é daqui. Não me via fora da cidade quanto mais fora do país. Então, fiz uma contraproposta ao clube: mandei os números para cima a achar que não iam aceitar. O que é certo é que os búlgaros  disseram que sim, mas entretanto eu voltei atrás. De certeza que pensaram que eu era maluco, aliás vieram a Espinho para ouvir o não da minha boca. Devem ter achado que havia alguma problema com os empresários, mas o único problema era eu. Passaram alguns dias até que a Sara,  a minha esposa, chamou-me à razão e fez-me olhar para a proposta como um projeto de família. Eu estava a pensar em mim e não no nós e no futuro. Consegui reativar o interesse e assinei por dois anos. E foi a melhor coisa que fiz na vida. O Ludogorets fez-me ir para outros voos, jogar a Liga Europa e a Liga dos Campeões, algo que já não esperava com 28 anos, nem nos meus melhores sonhos. Imagina: dois anos antes, tinha subido da Liga 2 e na época anterior tinha descido com o Moreirense… Eu não sou muito de acreditar em milagres, mas aquilo foi uma luz que se acendeu e disse-me: ‘tens de ir’.


- Vocês viviam em Razgrad, uma cidade pequena do interior. Como foi a adaptação?
- Tive um início um bocado atribulado, porque o clima e a cultura são bastante diferentes, mas tive a sorte de ter colegas brasileiros que nos ajudaram muito. Eles já percebiam búlgaro e orientaram-nos nos primeiros tempos. Passado dois ou três meses já estava ambientado e fiz uma época de sonho - quase 60 jogos. E o segundo ano foi a cereja no topo do bolo, pois conseguimos entrar na fase de grupos da Liga dos Campeões. Só tenho boas recordações da Bulgária.


- E em termos de vida social?
- A vida social era pouca, porque Razgrad não tinha praticamente nada. Para irmos a um shopping tínhamos de andar 80 quilómetros, hora e meia de carro. O que não era necessariamente mau, porque fui para amealhar e não para gastar. A vida era muito barata. Lembro-me que eu, a Sara e a minha filha comíamos num restaurante por 15 euros.


- Na Champions calharam no grupo do Real Madrid com Cristiano Ronaldo e companhia. A cidade tinha um hotel porreiro para os receber  [risos]?
- Não tinha, mas os jogos da Champions eram na capital, em Sófia. Ou seja, nós tínhamos de fazer 350 quilómetros de autocarro para jogar em casa e demorávamos seis horas, porque as estradas eram fracas. Os jogadores da equipa visitante faziam viagens mais curtas - duas horas de avião - e chegavam mais frescos do que nós que supostamente jogávamos em casa [risos]. Mas a adrenalina era tanta que ninguém se queixava. Lembro-me que nos juntámos para ver o sorteio e cada equipa que saía era festejada como se fosse um golo. Queríamos calhar com as melhores, ir aos grandes estádios e jogar contra os melhores jogadores. E tivemos sorte: os gigantes Real Madrid e Liverpool e depois o Basileia que era mais ao menos do nosso nível.


- Trocaste de camisola com o Cristiano Ronaldo?
- Sim, tanto em Sófia como em Madrid. Tenho duas camisolas do Cristiano. Somos da mesma geração - a de 1985 - e joguei contra ele até aos juvenis, depois deu o pulo que toda a gente conhece. Na Bulgária,  reconheceu-me no túnel, deu-me um abraço e perguntou-me se gostava de estar ali e disse-me que era bom um jogador aventurar-se, etc. Teve uma conversa porreira e fiquei muito contente com a atitude dele. Por ser quem é até podia ter olhado para o lado e ignorado, mas foi cinco estrelas.


- Essas duas épocas valeram a passagem para o campeonato espanhol, mas no Málaga não tiveste muitas oportunidades…
- Sim, é verdade. Como disseste, vinha de dois anos muito bons em que toda a gente do Ludogorets saiu valorizada. Fizemos história: ninguém nos conhecia e conseguimos fazer quatro pontos num grupo difícil. Aquilo correu às mil maravilhas… Posso dizer-te  que jogámos com o Real em casa de cara a cara. Tínhamos muitos brasileiros e eles têm uma mentalidade que eu acho interessante: pensam que podem ganhar sempre e isso é bom. Eu estava em fim de contrato, a renovação estava apalavrada, mas entretanto recebi a proposta do Málaga e não podia olhar para trás. Fiz o que qualquer jogador faria. Tinha trinta anos e até pensei que era brincadeira quando o diretor desportivo me ligou a perguntar se queria ir para lá. Disse logo que sim, nem quis saber de valores. Ficarei sempre grato ao Ludogorets, porque abriu-me portas e permitiu-me realizar muitos sonhos. Adorei lá estar, mas aquele ciclo tinha chegado ao fim e eu tinha de continuar o meu caminho. Na altura, achava que ia correr bem como é óbvio…


- O que correu mal?
- Sinceramente não faço ideia. Eu tinha uma boa relação com o treinador e com toda a gente no clube, aliás sou uma pessoa fácil de me relacionar. Adorava os treinos do Javi Gracia - foi o treinador do Valência na época passada - mas não entrava nas opções dele. O facto de não estar a jogar mexeu comigo e fiquei com vontade de ir embora. As coisas aconteceram demasiado rápido. Se numa semana estava na lua e até a sonhar com a possibilidade de ir à Seleção, depressa ficou tudo mal quando percebi que não ia jogar.


- Há duas formas de lidar com essa situação: continuar no clube e cumprir o contrato mesmo não sendo opção ou pedir para sair e seguir outro caminho. Decidiste pela segunda?
- Eu respeito e até tiro o meu chapéu a quem tem essa capacidade de sofrer, porque no fundo é mesmo isso. Mas eu não consigo. O dinheiro não paga a sanidade mental. Há momentos muito difíceis quando um jogador está à parte e quando sente essa revolta interior mais vale pensar e agir. Foi nesse sentido que em janeiro pedi para ser emprestado ao Moreirense. Com todo o respeito pelo clube, porque eu adoro a gente do Moreirense, sabia que era um passo atrás para depois dar dois em frente. Eu não queria estar uma época sem jogar, queria seguir com a minha carreira. No fim do empréstimo, rescindi o contrato com o Málaga e assinei pelo Boavista. Eu falei-te há bocado numa luz que ilumina a minha vida e posso dizer que é o meu pai. Eu sempre tive um grande apoio familiar tanto da minha mulher como dos meus filhos e da minha mãe, mas desde que o meu pai faleceu, ganhei uma força extra. Pode parecer controverso, mas a morte dele deu-me coragem para ir atrás dos meus sonhos e orgulhá-lo. E sei que isso aconteceu quando fui para o Bessa.


- Era o clube do teu pai?
- Sim, o meu pai era boavisteiro e a maior parte da família da Sara também. Não é para puxar o saco a ninguém, mas tenho o Boavista no coração. Senti-me acarinhado por todos nos três anos em que lá estive. Apanhei bons treinadores, bom staff, tinha uma boa relação com os adeptos - era o homem do megafone [risos]. Foi uma história bonita!


- Vamos recuar uns aninhos. A saída do FC Porto aos 21 anos, clube onde chegaste com 7, foi uma chapada?
- Foi e doeu. Mas indo um bocadinho mais atrás: eu comecei no FC Porto com seis ou sete anos, era muito pequeno. Jogava na rua e na praia de Espinho e foi o senhor Freitas, um dos treinadores, que me levou para lá e a quem estarei sempre grato. Ele viu-me jogar, achou que eu tinha jeito e convidou-me para ir experimentar. Num sábado, fui com ele mas não tive a presença dos meus pais. Os outros meninos estavam lá a equipar-se com os pais e eu parecia um profissional da bola com o saco debaixo do braço [risos]. O treino correu às mil maravilhas, mas, no fim, doeu-me ver as outras mães a secar os filhos depois do banho e eu estava ali sem saber o que fazer e cheio de vergonha. Mal cheguei a casa disse à minha mãe que não ia mais. Ela não deu atenção. No sábado seguinte, o treinador foi-me buscar mas a minha mãe adormeceu. Na altura, não havia telemóveis e não tínhamos despertador. Mas eu até chorei para não ir. Ela disse-me palavras mágicas: ‘se no próximo sábado não quiseres ir, não vais mais; mas hoje vais e vais agora que o senhor está à espera’. Lá fui. Fiz a formação toda e fiquei catorze anos ligado ao Futebol Clube do Porto. Depois o meu pai passou a acompanhar-me e a ir comigo para todo lado. Acabei por não responder à tua pergunta…

 

- Não faz mal. Temos tempo…
- Eu cheguei a treinar algumas vezes com a equipa principal quando estava na B, mas depois acabaram com a segunda equipa e fui dispensado. Aquilo caiu como uma bomba, doeu bastante e também coincidiu com a morte do meu pai. Mas agarrei-me às coisas boas e consegui dar seguimento à minha carreira. Sou uma pessoa que lida bem com a crítica e com problemas, só me dão mais força.


- O que é que os teus pais faziam?
- O meu pai era ourives e a minha mãe trabalhava num supermercado. Não usufruíam de um salário muito alto, então abdicavam de alguma qualidade de vida para investir em mim. Por exemplo: houve um ano em que o meu pai não me conseguia levar aos treinos e eu ia de táxi com uma pessoa de confiança lá da terra que fazia um preço especial. Foi um investimento que os meus pais fizeram e eu estarei sempre grato.
 

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