O sentido da vida (artigo de Manuel Sérgio, 364)

Espaço Universidade 30-07-2021 19:22
Por Manuel Sérgio

Com a idade que hoje tenho, poderia escrever, a meu juízo, estas palavras de Fernando Pessoa, para traçar um retrato de mim próprio… com 88 anos de idade: “Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu” (Fernando Pessoa, O livro do desassossego, Tinta da China, Lisboa, 2016, p. 471). E, porque me encontro de vez despedido de muito do que fui… será que a vida tem sentido para mim? A velhice não passa de um tempo trágico, marcado pela sucessão de perdas? O problema antropológico da morte é coisa de somenos? Que significado tem, para um ser humano, saber que inevitavelmente morrerá? É que a morte humana não se resume a um problema físico-químico. E o amor? E a amizade? E a poesia? E a tecnociência? E a filosofia? E a política? E a teologia? É que tudo isto (que é muito) finda, com a nossa morte. Não esqueço aquele burburinho de enlevo e de admiração, que rodeava os jogadores (e não só de futebol) do Belenenses, no Estádio José Manuel Soares (ou das Salésias). Nem os hossanas vibrantes que me saíam da garganta, na igreja da minha freguesia (aos meus pais devo um fundo de piedade religiosa que, espero, jamais se apague, enquanto vivo for).  O meu espírito alado de criança andava sozinho pelas cumeadas ermas da fantasia e, estou certo, nem um subtil trejeito fastiento se topava no meu rosto. Era feliz e, com a palavra Deus, resolvia todos os problemas que eu não sabia resolver. E aprendi a dizer, com a minha mãe: “Quem quer o que Deus quer tem tudo quanto quer”. A definição tradicional de morte “é a separação entre a  alma e o corpo”. O dualismo antropológico de Platão e Descartes resolviam o problema da morte, com uma certa facilidade, pois que confinavam a morte à esfera biológica.  O corpo não é o corpo-objeto do racionalismo e de um certo treino desportivo, mas o corpo-sujeito, pois que, na mulher e no homem, vivem, em dialética incessante, como elementos indivisíveis, indispensáveis do mesmo todo, matéria e espírito, natureza e cultura, inteligência e liberdade, quantidade e qualidade – o infinitamente grande, o infinitamente pequeno e o infinitamente complexo. Portanto, quando um homem, ou uma mulher, morrem, não é um corpo que morre, mas uma mulher, ou um homem.

 

Passado este ambiente mágico de criança; depois do “Nascimento de Vénus” (lembram-se do quadro de Botticelli?) e dos problemas da adolescência; com o casamento, o nascimento dos filhos e a necessidade que tive de ampliar as habilitações académicas (com 22 anos, não tinha mais do que a Instrução Primária) – aos 27 anos ingressei na Faculdade de Letras de Lisboa, onde tive a oportunidade de conhecer, embora adversários inflexíveis de todos os extremismos, alguns alunos de admirável consciência política e com uma vasta cultura, que muito me surpreendeu. Estímulos ao meu enriquecimento intelectual e literário e político não me faltaram. A Cidade Universitária de Lisboa era, na década de 60, um local de polémicas lapidares, direi mesmo: e paradigmáticas, a que eu, católico e belenenses e filho de uma sociedade falocrática, não fui insensível. Li muito e continuo a ler muito.  “Borges dizia que alguns orgulham-se das páginas que escreveram, mas que ele se orgulhava daquelas que leu. Se nós somos feitos de memória, então somos também feitos das nossas leituras. Ao mesmo Borges, numa entrevista, perguntaram-lhe uma vez: Afinal quem é Borges? E ele respondeu: Borges não existe. Eu sou todos os livros que li, todas as pessoas que conheci, todos os lugares que visitei. Se tivesse feito outras leituras, vivido outras coisas, seria outro” (Manuel António Pina, Dito em voz alta, organização de Sousa Dias, Documenta, Lisboa, 2016, p. 99). Trabalhei, de 1952 a 1965, no Arsenal do Alfeite; licenciei-me na Faculdade de Letras de Lisboa e doutorei-me no ISEF/UTL; ensinei (e ensinaram-me) em Portugal, Espanha, Brasil, Colômbia e Chile; e, repito-me, li, li muito (e continuo a ler); no Brasil, fui também professor de doutorandos, em Filosofia e Epistemologia; trabalhei, durante 24 anos no Clube de Futebol “Os Belenenses”;  e, hoje, com o chegar da velhice, penso em temas que eu, há anos, nem dava por eles. Como este: o sentido da vida! Mas… não deveria cair sob a alçada do Código Penal um indivíduo que nada sabe de futebol, nem cultua, de joelhos, as figuras gradas do nosso “desporto-rei” e adianta, para um jornal desportivo, meia dúzia de assuntos, sem interesse nenhum?... Aqui, sou forçado a discordar: é que não são poucas as pessoas que me dizem que são fiéis leitores dos meus artigos. Só para dulcificar as dores da minha senectude? Ou para reacender, em mim, a bíblica “vaidade das vaidades”? Talvez…

 

Se na vida de uma pessoa tudo se encontra sujeito ao jugo do quantitativo, do cálculo, do funcional; se tudo o que fazemos está orientado para satisfação de um egoísmo feroz; se os valores de ordem moral, porque não são quantificáveis, se remetem para o domínio do subjetivo, do arbitrário, do socialmente dispensável – é evidente que não nos deverá surpreender que “os grandes senhores deste pequeno mundo” decretem uma civilização onde milhões de pessoas não têm o necessário para poder ser. Assim, tem razão o Sartre: “o inferno são os outros”. E, se o inferno são os outros, não sofre dúvidas: a vida não tem sentido, sem um “tu” não pode existir um “eu”. O próprio desporto é mais uma competição no plano do ter do que uma coopetição no plano do ser. O desporto não se confunde com o Evangelho em ação, não quero dizer tanto mas, na periodização antropológico-tática, o futebol não é mais do que futebol? Há progresso sem ética? E quando invoco a ética não deixo de lutar por um Estado laico, pois que o Estado é (deve ser) para todos e, por consequência, onde não caiba, no que diz e no que faz, a etiqueta de uma confissão religiosa particular. Sabemos no que dão as teocracias – em ditaduras, nada mais! Os Governos democráticos, de facto, apresentam-se ao público com uma ideologia particular, mas uma ideologia à medida de todos os cidadãos e não tão-só de uma parte. Foi um amor à primeira vista o que eu, nas décadas de 60 e 70, entrei de sentir pelos países democráticos da Europa – um verdadeiro acontecimento que, ainda hoje, nada perdeu, para mim, do seu fervor e da sua originalidade. Em Portugal, é difícil admirar-se uma convivência harmoniosa. Demais, diante do sucesso dos outros ficamos doentes. Dói-nos reconhecer nos outros o talento de que carecemos, a coragem que nos falta, a originalidade que não temos. No meio de todos os meus defeitos, tenho esta virtude: não odeio nem invejo ninguém! O ser e o abstrato são do domínio da razão; o dever ser e o concreto do domínio do amor. E foi, aqui, no domínio do amor, que cometi os meus maiores pecados mas, hoje, a perder diariamente a memória e a luz dos olhos e a capacidade de movimento, ainda é no domínio do amor que encontro o sentido da vida…     

  

O Miguel Torga, transmontano, médico e escritor (dos grandes escritores da nossa Literatura) tem, no volume XIII do seu Diário, um texto que me parece oportuno reler, neste momento: “Jogos Olímpicos. O que o homem é capaz de fazer do homem! Até onde se pode levar o desrespeito pela sua condição! Aquelas medalhas de ouro, prata e bronze, em vez de honrarem a espécie, celebram apenas a desumanidade do nosso tempo, que confunde a mecânica com a fisiologia e põe no mesmo pé de igualdade a máquina que sai de uma oficina e um corpo que nasce de um ventre. Que exige, com igual insensibilidade, mil rotações a um motor e outras tantas pulsações a um coração” (p. 138). Eu já escrevi, há muitos anos, que “o desporto atual reproduz e multiplica as taras da sociedade capitalista”. E poderíamos acrescentar: “e do racionalismo capitalista”. O Miguel Torga, no volume XVI do seu Diário, não escondeu “o mal que o racionalismo fez à humanidade” (p. 68). Com a Razão, triunfou a tecnociência (e muito bem!). Só que, exclusivamente com o equipamento conceptual das ciências, deu-se ao olvido a filosofia e, muito mais, a teologia. Ficaram assegurados os direitos da Razão e da Ciência. Mas, para uma medida rigorosa e suficiente do humano, digamos doutro modo: para uma compreensão integral do humano, a Ciência e a sua representação quantitativa não são tudo. A Ciência, sendo indispensável, não responde a todas as nossas aspirações ou, como Pascal o acentuava, “não satisfaz todas as nossas necessidades”. O próprio Desporto, só com Ciência, pouco tem de pedagógico e humanizante. É que “a ânsia de competir é negativa se impede a cooperação com os demais, se justifica o vale tudo, desde que se ganhe, ou desemboca no abandono depreciativo do próximo menos capaz, ou menos afortunado” (Fernando Savater, O meu dicionário filosófico.D. Quixote, Lisboa, 2010, p. 96). Banalizamos a nossa vida e a vida do nosso semelhante, repetindo lugares comuns. De acordo com o que nos relatam os grandes cientistas e filósofos, falta sempre qualquer coisa às nossas investigações sobre o ser humano e a própria natureza. Por isso, é na Teologia que, por vezes, encontro o sentido da vida.  

                

                  

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