O Bandarra do Seixal (artigo de José Antunes de Sousa, 94)

Espaço Universidade 01-05-2021 01:00
Por José Antunes de Sousa

Andava eu às voltas com uma magra meia dúzia de ideias que, de tão magras e anémicas, mais pareciam fugidios assomos de coisa nenhuma, quando Jesus, não o de Nazareth, mas o da Aroeira/Seixal acorreu em meu auxílio: pregando do alto do seu púlpito e instalado na certeza da sua admirável infalibilidade, me oferecia, no pós-jogo com o  Santa Clara, um gordo motivo para uma magra mas séria reflexão.

 

Sabemos das incidências desse jogo em pleno estádio da Luz: o Benfica beneficiou de um auto-golo de um jogador da equipa adversária e foi, já quando o tempo útil se esfumava, que o Chiquinho ( Chico, não - coisa engraçada essa a dos diminutivos no mundo do futebol: será um ínvio resquício da sua matriz lúdica?) marca o golo de mais uma vitória tangencial.

 

Mas o povo pode estar tranquilo - porque, afinal, tudo aquilo estava programado, mais, estava já concretizado na luzidia  cabeça do treinador, bem adornada de cabelo e tiques. Se não, vejam:

 

“Jogo complicado, mas que correu como tínhamos previsto, encontrámos as dificuldades que sabíamos que íamos encontrar “. E, com tão sonora e contundente sentença, eis como se decreta a esotérica ciência de um treinador perspicaz e competente.

 

Mas há mais: no dia em que dedilho estas letras, o Benfica vai jogar a Tondela - e eu já sei o que vai acontecer: vai ser muito difícil.

Não me peçam que acerte no resultado do jogo - que não sou adivinho nem arúspice (não vou extrair as entranhas da Águia para ler o futuro, nem vou consultar a Pitonisa de Delfos), mas há uma coisa que tenho por certa: o Benfica vai passar por apuros, mesmo que acabe por ganhar. Até pode sair das terras do Dão com o saco cheio, mas será sempre com muito suor e, quem sabe, algumas lágrimas.

 

Donde esta minha certeza? Do auto-decreto proclamado, com pompa e circunstância, pelo experiente treinador do clube da Luz:  “vamos ter muitas dificuldades neste jogo, porque o Tondela está a fazer um campeonato muito melhor que em anos anteriores “, ou seja,  em vez de centrar a positividade da sua crença nas reais capacidades da sua equipa, dedica o melhor de seu tempo, num  exercício de verbalização antecipatória, a alimentar e a robustecer, vejam o paradoxo, precisamente as possibilidades de êxito da equipa adversária.

 

A este tiro no pé, tão arraigado na mente magnânima dos treinadores dão os psicólogos o nome de “profecia auto-realizável”. Porquê?

Qualquer afirmação, suportada pelo acelerador da verbalização, põe em marcha uma intencionalidade operante, demiúrgica, que cria literalmente a realidade verbalizada: a nossa vida é uma auto-narração que incessantemente executamos através de nossos pensamentos expressos.

 

A palavra não é um mero “flatus vocis = sopro da voz), a palavra, digamo-lo assim, não se esgota numa fonética meramente nominativa, mas, insondavelmente mais que isso, ela constitui uma ponderosa unidade energética, portadora de uma capacidade denotativa, o que quer dizer que dá significado e vida àquele sopro que, assim, supera, até à vertigem, a sua dimensão fonética e protocolar.

 

Sejamos claros: cada um de nós cria, com seu pensamento verbalizado, a sua própria experiência. Mas há mais: beneficiando do seu poder posicional no interior do sociodrama, que é a equipa/grupo, as declarações do chefe hierárquico (hieros +arche: poder sagrado, que vem de Deus) produzem inevitavelmente um eco em todos os subordinados, afectando e condicionando a postura mental de todo o grupo.

 

E já se sabe que se colhe aquilo que se semeia,

 

 

Palmela; 30 de abril de 2021

 

José Antunes de Sousa

Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa

 

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