«Fomos campeões e quase nem festejámos» - José Sá

A BOLA FORA 27-04-2021 00:47
Por Tânia Ferreira Vítor

É a segunda vez que faço A Bola Fora com o José Sá. Em 2018, tinha acabado de chegar ao Olympiakos, entretanto tem colecionado títulos: em três anos, foi campeão duas vezes e ganhou uma Taça da Grécia - há a possibilidade de voltar a ganhar esta época. Bem-disposto e descontraído, é do género de jogador que não finta as perguntas e não receia as respostas. 

 

- À hora que te ligo, o que estás a fazer?

 

- Estamos a ver uma série que a minha sogra recomendou, é sobre investigação e crime. Tanto eu como o Raquel gostamos muito deste tipo de séries. É tipo um CSI [Crime Sob Investigação], mas com casos reais.

 

- Outra vitória, desta vez frente ao Asteras, por 1-0 [quarta-feira]…

 

- É verdade. Foi um dia de descanso para mim. Como já somos campeões, o treinador, Pedro Martins, acabou por mudar alguns jogadores e eu fiquei de fora.

 

- Mal te lembravas como é estar fora do onze.

 

- É verdade. Tirando os jogos da Seleção, já há muito tempo que não me sentava no banco e ainda bem. Tenho jogado sempre [até ao dia da entrevista, o guarda-redes fez 40 jogos].

 

- Ser campeão a meio de abril e com 20 pontos de vantagem tira encanto à competição?

 

- Tira, porque nós já sabíamos que íamos ser campeões. Já é difícil reverter a situação quando uma equipa tem 12 pontos de avanço, mas 19 ou 22, como nós tínhamos, é mesmo muito. O dia do título acabou por ser um dia como os outros. Fomos campeões e quase nem festejámos. Tomámos banho e cada um seguiu para sua casa. Por norma, o clube só faz a festa no último jogo da época e não no dia do título. O facto de não termos adeptos nos estádios também influencia muito. Sem adeptos não há o mesmo encanto, o futebol é para eles.

 

- Com o campeonato no bolso, já se pensa nas férias e no regresso a Portugal?

 

- Ainda falta a meia-final da Taça e, se Deus quiser, a final. Vamos jogar a segunda mão com o Giannina; o primeiro jogo ficou 1-1. A outra meia-final é entre o AEK e o PAOK.  Mas estou a precisar de férias, aliás acho que a malta toda do futebol está a precisar.

 

- Os adeptos do Olympiakos arranjaram maneira de festejar com a equipa ou foram travados pela pandemia?

 

- Não foi possível. A seguir ao jogo contra o AEK em que ganhámos 5-1, os adeptos apareceram no centro de estágio a cantar e a festejar. Ainda não tínhamos sido campeões, mas só faltava uma vitória que aconteceu na jornada seguinte contra o Panathinaikos.

 

- O vosso presidente - Evangelos Marinakis - é uma figura marcante e polémica do futebol grego. Como é a relação com os jogadores?

 

- Quando o presidente vai ao centro de estágio, interage e há uma boa relação. Ele dá-se bem com os jogadores, pelo menos quando as coisas correm bem. Quando não correm é melhor deixá-lo estar [risos]. É uma pessoa polémica que já tomou decisões também polémicas, mas ninguém pode negar que é um adepto fervoroso do Olympiakos. Eu lembro-me de uma situação…

 

- Força…

 

- No meu primeiro ano, no espaço de duas semanas, fomos arrumados da Liga Europa, perdemos o campeonato para o PAOK e saímos da Taça contra uma equipa mais fraca, o Lamia. Os adeptos estavam todos lixados e apertaram connosco, uns 15 da claque foram ao balneário. O presidente estava a falar connosco, muito triste e com as lágrimas nos olhos. Não me vou esquecer desse momento, porque percebe-se que ele sente e defende mesmo o clube.

 

- Tenho ideia de que há uma maior proximidade entre as pessoas dos clubes gregos do que acontece, por exemplo, no futebol português. As hierarquias fazem-se notar menos aí?

 

- Quando estive no FC Porto, o presidente Jorge Nuno Pinto da Costa não aparecia muito nos treinos, mas eu soube que nos anos anteriores aparecia mais. [Raquel, a companheira] ‘Mas é diferente, tu não tinhas o número de Pinto da Costa como tens do Marinakis. Ou seja, se precisares de alguma coisa não ligas ao presidente do FC Porto como se calhar podes ligar ao presidente do Olympiakos.’ [José Sá de novo] Ok, nesse sentido talvez haja maior proximidade aqui. É verdade que o Marinakis está sempre no relvado antes dos jogos, às vezes no intervalo também. As pessoas são muito ligadas.

 

- Esta é a tua terceira época em Atenas. Já tens alguma coisa de grego?

 

- Não. Estamos fechados em casa há mais de um ano por causa da pandemia. A Raquel e a Maria é que têm passado pior, porque eu saio para treinar e jogar, é diferente.

 

- Foste chamado por Fernando Santos para substituir Rui Patrício na última convocatória para a Seleção Nacional, em março. O que há de diferente num balneário de equipa e num balneário de seleção?

 

- Em primeiro lugar, fiquei muito feliz pela oportunidade. Respondendo à pergunta: é diferente, porque na Seleção vês companheiros e amigos com quem já não estás há muito tempo. E como só estamos ali durante um curto espaço de tempo, dez dias ou duas semanas, temos sempre tema de conversa. Matamos as saudades dos amigos, falamos de como são as coisas nos clubes onde estamos, revivemos momentos. É como uma reunião de família.

 

- Sempre que há uma janela de transferências, o teu nome aparece associado a algum clube. Imagino que este verão não será diferente…

 

- É sempre bom vermos o nosso nome associado a boas equipas, bons campeonatos, porque é o reconhecimento do trabalho. Qualquer jogador tem a ambição de dar o salto, de experimentar outros palcos e eu não sou exceção. Mas um profissional tem de saber lidar calmamente com isso, porque pode acontecer ou não.

 

- Lidas bem com a incerteza do futebol ou ficas ansioso?

 

- A minha mulher diz que eu sou a pessoa mais tranquila do mundo e que ela é a parte ansiosa. Às vezes, até me sinto mal, porque eu chego à cama e aterro, mas ela não dorme. Às vezes, acordo às quatro ou cinco da manhã e vejo que ainda está acordada, fica mesmo ansiosa com as notícias. Ela é muito metódica e a incerteza mexe com ela. Já desmontou esta casa três vezes e não fomos para lado algum. Sempre que se fala nalguma possibilidade, começa a empacotar tudo e a adiantar o serviço. No primeiro ano, vim emprestado pelo FC Porto, era a nossa primeira experiência fora e não sabíamos se ia regressar ou não. Um mês antes, a Raquel já tinha a casa toda em caixas e chegou mesmo a mandar tudo num camião. No último dia da época, disse-lhe que tinha sido comprado e tivemos de pedir ao motorista para voltar para trás. Já ia em Salónica, a 500 quilómetros de Atenas [risos]… Já lhe disse para não empacotar nada este ano.

 

- Sigo-vos nas redes sociais e já vi a Maria a maquilhar-te várias vezes. Entras nas brincadeiras dela?

 

- Completamente e gosto muito. A maquilhagem faz parte da vida de um pai de menina. Eu adoro ser pai de menina e se vier outra ficarei todo contente. A Maria é incrível, a melhor coisa que me aconteceu na vida.

 

- E como é que está o teu grego? Na primeira A Bola Fora só sabias dizer malaka - maluco - e contar até três. Houve evolução?

 

- Está quase igual. Sei dizer kalimera que é bom dia, kalispera que é boa tarde e kalinita que é boa noite. E sei dizer obrigada, como estás e pouco mais. É uma língua muito difícil e quando eles falam rápido parece que não há separadores [risos].

 

- Ao longo destes anos, deves ter colecionado algumas histórias caricatas com os adeptos do Olympiakos…

 

- A história mais engraçada que eu tenho com os adeptos, até porque estamos há época e meia sem público, foi no meu primeiro ano. Aconteceu no fim do jogo contra o Milan, na Liga Europa, em que ganhámos 3-1 e houve invasão de campo. Tínhamos de ganhar por uma diferença de dois golos e foi inacreditável. Estávamos a ganhar 2-0, eles fizeram o 2-1 num canto e aos 81 minutos fizemos o 3-1 de penálti. Foi uma explosão no estádio e no final foi a loucura. Eram uma multidão de pessoas a vir na nossa direção e foi um bocado assustador. Um bocado é favor, porque aqui eles são malucos.

 

- Qual é o jogo mais quente do campeonato grego?

 

- É contra o PAOK, tanto fora como em casa. Há sempre aquele show de pirotecnia e um ambiente muito quente. O Panathinaikos e o AEK também são grandes rivais, mas esses jogos não têm a mesma dimensão. Eles jogam no Estádio Olímpico de Atenas que é enorme, leva 70 mil pessoas, mas nunca está cheio. O estádio do PAOK é bem mais pequeno, mas está sempre lotado. Eles ligam aqueles focos todos e tem um ambiente quente.

 

- O que é que dirias ao rapaz que chegou a um clube grande aos 17 anos e que agora tem coleção de títulos e uma vida confortável?

 

- Aos 17? Foi só aos 23…

 

- Não chegaste à formação do Benfica com 17 anos?

 

- Ah, sim, é verdade. Mas tu falaste em clube grande… A um grande só cheguei aos 23, quando assinei pelo FC Porto [risos]. Diria ao miúdo para continuar a lutar e a trabalhar que vai valer a pena e que a oportunidade vai estar ao virar da esquina.

 

- Olha que eu vou publicar [risos]. Qual foi a tua maior extravagância?

 

- Foi comprar o carro que realmente gostava. Eu só comecei a receber melhor quando fui para o FC Porto. Passado uns meses de assinar, comprei uma casa em Braga, de onde sou natural. Sabes que quando fui para o Benfica, não dava para esses luxos. Ganhava o ordenado mínimo da altura. Não me estou a queixar ou a dizer que era mau, porque tinha 17 anos e era normal. Mas é claro que para um profissional de futebol que tem uma carreira curta, esses valores eram muito baixos.

 

- Vivias no Seixal?

 

- Sim, vivia no Caixa Futebol Campus e fazia toda a minha vida ali. O centro de estágio tem muito boas condições.

 

- A semana desportiva ficou marcada pela polémica Superliga Europeia. Qual é a tua opinião sobre esta prova que está a deixar o futebol em alvoroço?

 

- Nem sei bem o que te dizer. É um assunto que está a dividir muito o futebol e a prejudicar a maioria dos clubes. Claro que os clubes que estiverem nessa Superliga vão sair beneficiados, como é óbvio, mas é muito mau para os outros. É um tema delicado. É verdade que as equipas estão a passar por grandes dificuldades financeiras por causa desta pandemia e que isto iria gerar muito dinheiro. Mas não me parece justo.

 

- O Olympiakos fez cortes nos salários dos funcionários do clube por causa do Covid-19?

 

- Na época passada, sim. As pessoas do clube falaram com os jogadores e chegámos a acordo para alguns cortes, especialmente ao nível dos prémios. Mas esta época voltou tudo ao normal.

 

- No plano interno, como tens acompanhado a luta pelo título? O Sporting leva seis pontos de vantagem sobre o FC Porto [agora quatro]. Vai ser campeão?

 

- Olha que eu agora não sei, não sei se eles vão aguentar até ao fim. Se o FC Porto não quebrar não sei o que vai acontecer. O Sporting está com aquele discurso do jogo a jogo e não assume o título. E nós na Seleção falámos sobre isso, porque quando estavam a dez pontos era muita coisa, é uma diferença grande e parecia que o título estava entregue. Mas com estes empates e a seis pontos, acredito que o FC Porto ainda possa ser campeão. Falta muito jogo.

 

- Com tanta gente nova nesta edição da Primeira Liga, quem é que te encheu mais o olho?

 

- De todas as equipas? Olha, um jogador que eu gosto de ver é o Adán, o guarda-redes do Sporting. Tem estado muito bem, tem ajudado muito a equipa e, para eles, foi uma boa contratação.

 

- Se tivesses oportunidade de voltar a jogar um jogo, qual escolhias? Na última A Bola Fora, mencionaste o Portugal-Suécia, final do Europeu de sub-21, em 2015.

 

- Continua a ser esse jogo. Essa derrota ainda está entalada.

 

«Desafiámo-nos a fazer acrobacias»

 

A história de Raquel e José [a companheira trata-o por Pedro] não foi amor à primeira vista, foi obra do destino. Quem o garante é a própria.

 

«A primeira vez que o vi foi quando fui ver um jogo do ex-namorado da minha irmã. Eles jogavam juntos na seleção de sub-19 ou sub-20. Nessa altura, tanto eu como o Pedro estávamos numa relação. Alguns anos depois, o destino juntou-nos. Reencontrámo-nos através de amigos, começámos a falar nas redes sociais e fomo-nos conhecendo. Foi tudo muito gradual, não foi amor à primeira vista. O que mais gostei nele foi o facto de ser uma pessoa divertida e extremamente humilde, um valor ao qual dou muita importância. E acho que eu também acabei por surpreendê-lo. Oiço muito: ‘não pareces nada simpática nem acessível, mas, depois de te conhecer, és um amor’. E acho que foi por aí que o surpreendi. Não era a Barbie fútil. As coisas foram acontecendo com naturalidade e tudo começou com uma amizade. Ambos tínhamos passado por maus momentos e, no início, compartimos muita coisa. Sabíamos que podíamos confiar um no outro», lembra a modelo e atriz, natural de Matosinhos. 

 

E se para muitos casais a pandemia foi um problema, a companheira do guarda-redes conta como ultrapassaram os meses em isolamento.

 

«Procurámos muitos vídeos de yoga para casal e desafiámo-nos a fazer acrobacias. Umas correram muito bem, até porque eu fiz ginástica acrobática; outras foram só para rir e para passar o tempo. Além disso, dedicámo-nos à cozinha. O Pedro cozinha bastante bem, eu sou mais doceira. Experimentámos muitas receitas e foi uma das melhores maneiras de nos distrairmos», refere.

 

«Os casais têm de respeitar o espaço um do outro e acho que isso é muito importante para nós. Obviamente que se dizia: ‘vou tomar um banho’, sabia que podia demorar 30 ou 40 minutos, pois era o meu tempo. Tal como se o Pedro precisasse de ir para a varanda e de estar a ouvir música ou de estar a jogar playstation. Era o tempo dele e eu respeitava. Acho que esse é o grave problema de muitos casais», defende.

 

A Grécia está em processo de desconfinamento e Raquel faz o ponto de situação atual.

 

«As esplanadas estão fechadas e as lojas só atendem por marcação. Ou seja, se quiser ir a uma loja tenho de enviar mensagem a pedir. Entretanto, a loja responde se há ou não disponibilidade. Se não houver tenho de remarcar. Os gregos têm sido muito rígidos na pandemia. Quando fecham, fecham tudo e as multas são aplicadas sem dó nem piedade. Costumo dizer que os gregos adoram fugir ao fisco, mas não gostam tanto de fugir ao resto da legalidade. Cumpriram muito bem o confinamento e penso que têm sido exemplares. A seguir à Páscoa ortodoxa, 4 de maio, vão abrir os cafés e restaurantes. Para já, só ao postigo mas com muitas limitações de espaço», conclui.

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