Vamos regressar ao futuro (5) - Conclusão (artigo de José Neto, 122)

Espaço Universidade 03-04-2021 23:25
Por José Neto

Em termos de conclusão do tema que tinha “pano para mangas” e que ao longo destes simples mas significativos capítulos tenho vido a refletir com os meus estimados e bons amigos leitores e leitoras, concluo com base em algumas das excelentes notas que o nosso Ilustre Cardeal Doutor José Tolentino Mendonça (atual conselheiro e bibliotecário de Sua Santidade Papa Francisco), nos presenteia em toda uma obra que em todos os momentos e muito em especial neste tempo de  inquietude estrutural que nos estanca os sinais duma saudável vitalidade, e que reafirmo as suas reflexões, são como luz abençoada para perseguir um caminheiro onde sempre desagua a esperança. Lembram-se do meu último conto de Natal e da história dos prisioneiros da Resistência num campo de concentração expressa pelo poeta Tonino Guerra e contada pelo nosso querido Cardeal e em que configuraram mentalmente uma refeição e abriam as mãos em forma de concha e deixavam que elas se enchessem de um manjar invisível, saboreando-o lentamente, como de um prodígio se tratasse???

 

Ao calcorrearmos as encruzilhadas das escarpas que a vida nos norteia, permite-nos escutar o poder da insatisfação, a revelar a sede da verdade e a tomar mais consciência dos nossos limites, forças, contradições, confrontando-nos com a nossa própria identidade na descoberta de nós próprios.

 

Passamos por vezes a caminhar com outros passos, movidos da aspereza do caminho, morder os dentes à crua realidade, rasgar o olhar com vista para o infinito, escutar o cântico da coruja e serenar perante o clarão duma lua cheia na procura incessante da aurora para ver nascer um novo dia.

 

Enganem-se aqueles que pensam que só nascemos uma vez, diz o poeta, o teólogo, o conselheiro, o escritor: “A vida está cheia de nascimentos. Nascemos ao longo da infância quando os olhos se abrem em espanto e alegria. Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arreia. Nascemos na sementeira da vida adulta, entre invernos e primaveras maturando a misteriosa transformação que coloca nas hastes a flor e dentro da flor o perfume e o fruto. Nascemos muitas vezes naquela idade avançada onde os trabalhos cessam, mas se reconciliam com laços de interesse dum caminho adiado. Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar. Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de certas lágrimas. Nascemos na tarefa e na partilha, no confronto entre a amargura do silêncio ou iluminados por uma palavra e muito em especial quando somos capazes de perdoar, libertando os ofendidos da prisão e do rancor convertendo o ato em cortesia, gentileza, compaixão e delicadeza”. 

 

Tendo em atenção este estado de longa e resvalada asperidade com que nos defrontamos, permitam-me terminar esta temática escrita em cinco atos, referenciando uma das maiores figuras do meu tem(p)lo sagrado, o meu muito amado Professor Doutor Manuel Sérgio, anotando parte de um dos prefácios que muito me honrou proferir num dos livros por mim publicado:

 

A estória é de Theodore Roszak. Uma comunidade de rãs vivia no fundo de um poço e, como nunca de lá tinham saído (parafraseando Wittgenstein) “os limites do seu poço denotavam os limites do seu mundo”. De facto, só se sabe aquilo que se vive e as rãs, encafuadas num buraco escuro e húmido, não sabiam se havia mundo, para além do poço. No entanto, um pintassilgo descobriu o poço e o viver triste e melancólico das rãs e apiedou-se delas. E tratou de contar-lhes que, para além do poço, havia sol e alegria e ternura e amor e liberdade e paisagens de uma beleza de espantar. Linguagem esquisita esta a do pintassilgo que levou a classe dominante da comunidade das rãs a uma reunião urgente, donde saiu um comunicado, de que pode extrair-se o seguinte:

 

“Quem escutar e aplaudir as palavras do pintassilgo será condenado à morte. É que se trata dum revolucionário com ideias muito perigosas para a paz e harmonia da nossa vida social. Ficou também decidido que o pintassilgo será preso e morto, se um dia o pudermos apanhar”.

 

O pintassilgo era um ingénuo idealista e acreditou na boa vontade de uma rã que, conluiada com a classe dominante, o convidou a uma visita à escuridão onde chapinhavam: “Todos nós gostamos muito de ouvir-te. Desce daí das tuas alturas e vem conversar connosco aqui no fundo do poço. Serás muito bem recebido.” O pintassilgo, confiante, lá foi, sem contar com a sanha desenfreada das rãs que o aprisionaram e o mataram.

 

Neste tempo sofrido e gerado pela encrespada rudeza da escuridão, por vezes direcionado por palavras que escondem, encobrem e disfarçam os valores da veracidade, faço votos para que possamos descobrir sinais de luz, como símbolos da renovação da vida, como influxo revitalizador duma libertadora e generosa esperança.

 

Mais do que nunca o alerta do Padre António Vieira quando se referia à oratória: “As palavras devem ser altas e claras … altas para que toda a gente as possa ouvir … claras para toda a gente as possa compreender”

 

FELIZ PÁSCOA …  CRISTO RESSUSCITOU … ALELUIA!...

 

José Neto: Doutorado em Ciências do Desporto; Docente Universitário; Investigador.

 

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