«Vim do bairro mas nunca deixei de acreditar nos meus sonhos» - Pedro Correia

A BOLA FORA 28.12.2020 16:03
Por Redação

Ró-Ró em Portugal, Pedro Correia no Catar. A história improvável do miúdo do bairro do Casal de São José, em Mem Martins, que chegou há onze anos a um dos países mais ricos do mundo com uma bagagem cheia de sonhos. O defesa foi o primeiro português a vencer a Taça da Ásia. É internacional pela seleção do Catar desde 2016 e já somou 52 internacionalizações. Tem um pé em 2021 e o coração no Mundial de 2022, no Catar, o país que lhe deu tudo.


- À hora que te ligo, o que estás a fazer?

- Estou em estágio. Acabei há pouco de jantar com a equipa, entretanto vim para o quarto e antes de ligar estava a ver futebol. Às onze vou deitar-me para descansar para o jogo de amanhã [ganharam 1-0 ao Al-Rayyan na quarta-feira].


- Falar do campeonato do Catar podia rimar com Pedro Correia. Que balanço fazes desta experiência que leva quase onze anos?

- É muito tempo, são onze anos e tem sido uma experiência fantástica. Graças a Deus tenho ganho alguns títulos e tenho feito história - -ganhar a Asia Cup foi um momento marcante para a seleção do Catar e para o país. Foi incrível! E tenho tido a oportunidade de trabalhar com pessoas de grande nível, como o professor Jesualdo Ferreira, o Xavi e grandes jogadores e colegas de equipa. Espero continuar a alcançar mais objetivos na minha vida, continuar a ganhar títulos e meter o meu nome na história do futebol do Catar.


- Saíste do Aljustrelense, um clube modesto de Beja para o Catar. Como é que surgiu essa possibilidade, tendo em conta que em 2010 não se falava tanto no mercado árabe como agora?

- Antes de ir para o Aljustrelense, tinha jogado no Farense. E foi através de um amigo - o Pedro Russiano - que sugeriu o meu nome a um empresário que é o senhor Salem. Ele estava a precisar de alguém que jogasse a central e a médio centro, que fizesse as duas posições. Foi ver um jogo em Aljustrel, gostou de mim e entretanto começámos a falar. Depois desse jogo, falou-me na possibilidade de uma proposta, mas só disse muito mais tarde para que país era. Um dia ligou-me e disse: ‘Pedro, vais para o Catar fazer testes’ e  passado dois dias já cá estava. Andei em testes no Al-Ahli durante dois ou três meses, foi uma longa caminhada. Éramos um grupo grande de jogadores, mas só podiam assinar com um estrangeiro e, graças a Deus, fui eu o escolhido.


- És um jogador que muda pouco: estiveste cinco anos no Al-Ahli e cumpres a sexta temporada ao serviço do Al-Sadd. É sinal de que te sentes totalmente em casa?

- Sim! Já tive várias possibilidades para sair do Catar, mas quando uma pessoa está bem para quê mudar? Eu amo viver aqui, as pessoas gostam de mim e respeitam o meu trabalho. Estou super feliz e não me vejo a sair daqui sinceramente.


- E é difícil combater a nível financeiro com os clubes do Catar?

- Sim, sem dúvida! É difícil receber uma proposta mais vantajosa do que tenho aqui. Mas muito sinceramente não é uma questão de dinheiro. Eu sinto-me mesmo bem, sinto-me acarinhado por toda a gente, jogo num grande clube que me dás as condições todas. E o mais importante é que a minha família está muito feliz. Sentimo-nos seguros, temos uma vida tranquila e não nos falta nada, graças a Deus. Antes de tomar qualquer decisão, penso sempre no bem-estar deles. É difícil pensar em mudar de clube quando olho para a felicidade do meu filho por morar aqui. Ele adora a escolinha, os amigos e, por isso, pretendo ficar muito tempo.


- O teu filho já fala árabe?

- O Leonardo percebe algumas coisas em árabe e fala muito bem português e inglês - anda numa escola internacional onde é obrigatório ter as duas línguas.


- No Catar jogaste com e contra grandes estrelas. Xavi foi a maior delas todas?

- Sem dúvida! As pessoas têm curiosidade sobre o Xavi e perguntam-me muito por ele. E eu digo sempre que não há palavras para descrevê-lo. Toda a gente que gosta de futebol viu-o jogar e sabe o enorme talento que ele tem. É um exemplo do futebol mundial. E a parte incrível é que não mudou quando veio para o Catar. No verão deixou de ser meu colega de equipa para ser meu treinador e tem sido muito bom. É um treinador fantástico, está sempre ao lado dos jogadores, se calhar porque era um de nós ainda há  pouco tempo.


- E como é que ele é enquanto treinador? Dá umas boas folgas ou nem por isso?

- Por acaso, dá [risos]. Quando ele vê que consegue, costuma dar dois ou três dias de folga. O Xavi tem mais sensibilidade de perceber quando é que o jogador está a precisar de descansar. Ele tem mesmo um coração espetacular. É nosso treinador, mas os jogadores conseguem ter uma relação de amigo e de ex-colega - pouco mudou desde que ele é treinador. E é muito tranquilo. Para dar uma dura tem de estar mesmo muito chateado, o que é raro. Mantém a postura e a calma nos treinos e nos jogos.


- Aceitaste jogar na seleção do Catar em 2016 e desde então somaste 52 internacionalizações. Estamos prestes a entrar em 2021, mas já tens um olho no Mundial do Catar-2022?

- Posso dizer que sim [risos]. A ansiedade é muita como jogador e como cidadão do país. Começamos a sentir que já falta pouco. Temos treinado bastante e temos feito grandes jogos contra seleções muito fortes. Vamos ficar no grupo de Portugal, o que faz com que a minha ansiedade aumente ainda mais [o Catar vai integrar o grupo de Portugal da qualificação europeia para o Mundial. Para eles, servirá como preparação e não haverá pontos em disputa]. E noto que os meus colegas também estão entusiasmados por jogar contra Portugal. É especial defrontarmos seleções fortes… Já jogámos contra o Brasil e a Argentina e foi muito bom. Queremos fazer uma boa caminhada para que as pessoas fiquem orgulhosas de nós e para deixarmos uma boa imagem do país no mundo - os cataris merecem.


- Os estádios que estão a ser construídos para o Mundial têm sido notícia pela sua exuberância. Como já jogaste em alguns, podes contar-nos pormenores?

- Olha, ainda há três dias joguei pela primeira vez num estádio que foi feito para o Mundial. Foi no dia da  inauguração e foi demais. Eu já joguei em estádios muito bonitos, mas os daqui são de outro nível, vão chocar as pessoas pela sua beleza e por serem realmente diferentes.  Quando eu digo aos meus amigos de Portugal que todos os  estádios vão ter ar condicionado, as pessoas não acreditam. Lá fora, podem estar cinquenta graus de temperatura e lá dentro vinte. E o mais incrível é que os estádios vão estar abertos, mas mesmo assim será possível controlar a temperatura em todos os espaços. Será único!


- Tens tripla nacionalidade. És mais português, cabo-verdiano ou catari?

- Eu sei quais são as minhas raízes, sei de onde vim e sei quem me aceitou. Não consigo dizer que sou mais isto ou aquilo, mas consigo dizer que os três países têm um lugar igual no meu coração. Respeito muito Cabo Verde, porque é o país dos meus pais; respeito muito Portugal que foi o país onde cresci, onde fui criado e que recebeu os meus pais na emigração; e respeito muito o Catar que foi quem me abriu portas e me deu oportunidade de mostrar o meu trabalho. Sou grato aos três países.


- E ao nível dos palavrões, em que língua é que saem mais rápido? [risos]

- Isso é em qualquer língua. Sai em árabe, em inglês, em português. Foi logo a primeira coisa que aprendi quando cheguei ao Catar - é muito útil em campo [risos].


- Alguma vez sentiste que o facto de não seres muçulmano e de não partilhares a mesma cultura foi um entrave?

- Nunca! Aqui eles respeitam muito a religião de cada um, eu também respeito a deles. Eu vou a um casamento árabe e sei comportar-me, eles respeitam quando eu estou a rezar antes de um jogo ou antes de um treino. Sou católico - muito crente - e nunca me senti mal por isso. Em Doha há igrejas cristãs, já lá fui várias vezes e consegui praticar à vontade. Os cataris têm uma caraterística que eu admiro: se os respeitares, eles vão-te respeitar em dobro. Fazem-te sentir em casa, parte deles.


- O Catar deu-te a possibilidade de teres coisas que nunca tiveste?

- Sim, completamente! Graças ao Catar consigo ter coisas que nunca tive e, mais importante que isso, consigo dar ao meu filho o que os meus pais nunca me puderam dar. É verdade que a minha mãe vivia com dificuldades, mas felicidade houve sempre. E isso é o mais importante e o que eu quero que o meu filho aprenda. Venho de um bairro social, mas quero que ele cresça a saber que é possível concretizarmos os nossos sonhos se lutarmos por eles. Gosto muito de ir a Mem Martins com o Leonardo e de o ver jogar no mesmo sítio onde eu jogava com os meus amigos - é uma coisa que me deixa sem palavras. Vim do bairro mas nunca deixei de acreditar nos meus sonhos. Depois de muito trabalho, consegui chegar a um grande clube do Catar que me dá ótimas condições e isso deixa-me muito orgulhoso de mim mesmo.


- O facto de teres crescido numa zona complicada faz-te ser um pai mão largas?

- Depende. Há dias em que temos de meter um travão, porque ele já sabe pedir - adora carros. Há outros em que até estou bem-disposto e dou mais do que devia. Mas,  confesso que eu sou um pai babado. Não quero ver o meu filho passar o que eu passei, por isso vou sempre ajudá-lo no que eu puder.


- Em Portugal toda a gente te conhece como Ró-Ró. De onde vem a alcunha?

- Quando comecei a jogar futebol no Mem Martins - tinha sete anos - era avançado. Um dia, o mister Sérgio perguntou-me como é que eu gostava que ele me chamasse. E eu respondi: ‘Ronaldo’, por causa do Ronaldo fenómeno. E ele disse-me: ‘olha lá, tenho um nome melhor para ti: Ró-Ró. Ró de Ronaldo e Ró de Romário’. Eu gostava de marcar golos e era baixinho como o Romário, por isso, aquilo pegou. Até hoje, em Portugal, chamam-me Ró-Ró; aqui é só Pedro.


- Foste formado no Benfica até onde ficaste aos 16 anos. Continuas a ter uma costela encarnada?

- Uma não, todas. Sou benfiquista a cem por cento. Tenho um grande carinho pelo Benfica, porque sempre fui bem tratado e fiz grandes amigos. Não tenho qualquer mágoa por não ter conseguido chegar mais longe no clube. Só  tenho a agradecer, porque o que aprendi lá abriu-me outras portas. Quando estou em Portugal, adoro ir ver os jogos à Luz e fico muito contente por ver os meus colegas bem.


- Manténs contacto com jogadores desses tempos?

- Com o David Simão, o Joãozinho, o João Oliveira, o Pedro, às vezes encontro-me com o Penim… Temos um grupo de Whatsapp que ajuda a manter o contacto.


- Nunca jogaste na Primeira Liga. É um objetivo ou já não?

- Esse foi um dos meus objetivos durante algum tempo, mas eu já fiz trinta anos e como ainda tenho mais quatro de contrato com o Al-Saad penso que será difícil. Mas não fecho portas… Se surgir essa oportunidade e se for bom para mim é claro que ficarei contente de voltar a Portugal.


- Imagino que viver em Doha seja muito bom. Mesmo assim há saudades de casa?

- É muito bom mesmo! É uma cidade segura, com boas escolas e onde as pessoas são simpáticas. É verão a maior parte do ano com temperaturas muito altas. Eu às vezes até fico farto do calor, mas não há nada a fazer. Tenho algumas saudades de Portugal que será sempre a minha casa. Sinto sobretudo falta da família e dos amigos; tenho saudades de estar com eles na rua onde eu cresci e de ficarmos ali a conviver. E da comida, claro.


- Como vai ser o vosso natal [a entrevista foi gravada na terça-feira]?

- Normalmente vamos a Portugal, mas este ano não dá por causa da pandemia. No dia 24 vamos jantar em casa - eu, a minha mulher, o meu filho e o meu sobrinho que veio cá passar uma temporada. Vai ser um dia tranquilo. Na sexta-feira, vamos almoçar a um hotel que faz um brunch muito bom. Como aqui não festejam o Natal, não há iluminações na rua nem o mesmo ambiente.


- Se tivesses oportunidade de voltar a jogar um jogo, qual escolhias?

- A final da Taça da Ásia… Foi top! Ganhar aquele jogo foi inesquecível [3-1 frente ao Japão]. Quando aterrámos em Doha, fiquei sem palavras. Eu nem sabia que havia tanta gente no Catar. Tivemos uma recepção incrível desde a chegada ao aeroporto até entrar em casa.


- Sentiste que depois dessa final toda a gente queria celebrar convosco, mesmo pessoas que habitualmente não ligavam a futebol?

- Sim, aquela final parou o Catar. Toda a gente veio para a rua e tive a noção de que muitas dessas pessoas nem acompanhavam futebol. Mas foi realmente um momento histórico para o país. Essas memórias são o momento mais inesquecível da minha carreira. Mas queria dizer que o Al- Sadd até tem muitos adeptos no estádio, sobretudo nos jogos grandes, nas finais ou nos jogos da Taça do Rei. Mas é verdade que há jogos da liga que não têm quase ninguém.


«O choque cultural foi subtil»


Luena e Pedro conheceram-se na escola, nos arredores de Sintra. Um namoro de adolescentes que se tornou num amor para a vida toda. «Já nem me lembro bem que idade tinha, sei que andava no 6º ano, devia ter uns 12 e o Pedro 14, pois é dois anos mais velho. Começámos a namorar e foi daqueles amores de adolescentes, sabes? Depois separámo-nos e ficámos uns tempos afastados. Reatámos e aí decidimos oficializar. Foi nessa altura que vim para o Qatar, há oito anos», recorda.


Hoje sente-se totalmente em casa e adora o país que a acolheu. «A adaptação foi fácil. O choque cultural foi subtil, porque eu sou muito adaptável e para mim está sempre tudo bem», garante com um sorriso. Mas mesmo assim não se livrou de um episódio embaraçoso nos primeiros dias como emigrante. «Tinha acabado de chegar e ainda não estava muito familiarizada com os costumes deles… Estava no shopping e, a meu ver, estava vestida normalmente. Tinha umas calças de cintura subida e um top. Não achei que fosse desrespeitoso, mas uma senhora e um senhor árabes vieram ter comigo, disseram-me que eu não podia andar assim vestida e que devia comprar um casaco para me tapar. Pedi imensa desculpa e fui comprar o casaco. Resolvi o assunto», lembra.


A família portuguesa vive num pequeno condomínio composto por três casas. É lá que Luena passa a maior parte do dia: «Eu vivo muito para a família, é o meu foco. O meu papel prende-se com a organização de tudo cá em casa, garantir que está tudo bem para o meu filho e para o Pedro.»


Totalmente integrada na vida catari, Luena admite que há  costumes que lhe fazem alguma confusão: «O Pedro tem muitos amigos locais, por causa do futebol; eu só tenho uma amiga que conheci quando estava a tirar um curso de inglês. Mantivemos a amizade e ela conta-me algumas coisas da vida familiar. E uma que me faz alguma impressão é o facto de ter ficado a viver com a família do marido. Não são todos assim, mas a maioria fica na mesma casa da família mesmo depois de casar. Para nós é um pouco estranho. Quando casamos vamos à nossa vida e não ficamos a morar no mesmo teto que a sogra [risos].»


Quando pedi para completar a frase: «Não se pode sair de Doha sem…» a resposta foi imediata: ir ao Sealine. «É o lugar onde mais gosto de ir, já lá fui algumas vezes mas quero sempre repetir. É onde o mar encontra o deserto, tem lá um resort. E é giro, porque há montes de atividades: as pessoas tanto podem andar de camelo ou de karts, como alugar motas de água e fazer todo o tipo de desportos aquáticos. Os locais adoram tudo o que seja radical», finaliza, Luena, que é natural de Benguela, Angola.

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