«Os heróis não morrem!»: as palavras dos antigos companheiros sobre o ex-defesa do Dínamo Kiev, morto em combate no Donbass

Ucrânia 13.07.2022 17:05
Por Pedro Cadima

A guerra na Ucrânia abre crateras em cidades, feridas em famílias todos os dias. E a família do futebol tem conhecido perdas. A mais recente foi a vida ceifada do antigo defesa Sergey Balanchuk, uma das grandes promessas do Dínamo Kiev no início dos noventas, que fez parte da geração de Shovkovskyi, Vashchuk e Fedorov, que vieram a ser figuras de primeiro plano do clube de Kiev.

Tinha 47 anos e acabou morto na região do Donbass, sucumbindo a bombardeamentos russos nas redondezas de Bakhmut. Sem tanta sorte no futebol, apesar de ter prolongando carreira, passou discretamente pelo Dínamo, jogando três épocas em Israel no Maccabi Haifa e, mais tarde, num regresso a casa, fazendo parte do elenco do Vorskla Poltava, Balanchuk destacava-se hoje em dia como advogado, licenciatura que procurou após pendurar as chuteiras e não duvidou de se entregar ao exército na defesa do território após a invasão ordenada por Putin. A notícia da sua morte chocou os antigos companheiros e Vashchuk, figura carismática do clube na época de Shevchenko, que relatara, em exclusivo à A BOLA, a sua dramática luta pela sobrevivência nos arredores da capital, partilhou nas redes sociais uma carta de tributo a Balanchuk, marcando a sua nostalgia e dor.
 

«Estávamos sentados na mesma mesa, ele era um fenómeno como aluno na nossa escola do Dínamo. Achavam todos que eu era um bom aluno, porque copiava por Sergey. Na realidade não copiava, havia outras opções mas sempre me surpreendi com a rapidez com ele resolvia problemas complexos e escrevia longos ensaios. Ficamos rapidamente amigos, dentro do que é possível ser amigo na juventude, sem conhecer tanto o certo ou errado. Com Shovkovskyi e Fedorov éramos um gangue», escreveu o antigo líbero do Dínamo de Kiev.
 

«Acabamos por fazer o período de formação juntos, saímos para Borisfen para o Dínamo-3, regressamos e eu fui incluído na primeira equipa. Eles os três na segunda. Ele imediatamente compreendeu e apoiou a minha subida, o único que o fez a cem por cento, porque tínhamos um acordo que chegaríamos juntos», juntou Vashchuk, mergulhando nos diferentes caminhos seguidos.
 

«Depois jogou em Israel, mais tarde no Vorskla e, então, seguiu um rumo totalmente diferente. Uma carreira como advogado, recusando liminarmente o pensamento geral que um futebolista não seria capaz de o fazer. A vida levou-nos a diferentes países e cidades, mas estávamos sempre felizes quando nos encontrávamos. Tal como na nossa mais inocente juventude. Foram laços de sangue para a vida, coisas que entendemos mais tarde», justificou.
 

Há dois anos tivemos um encontro da nossa geração do Dínamo. Como se estivéssemos a viver outra vida. Ele ainda me escreveu em maio, dizendo-me que já estava alistado no exército. Não o esperava, claro! Sergey Balanchuk e o exército! Falamos do que estava a acontecer, sobre a guerra, sobre pessoas. E sobre a vida, claro! Agora tive a notícia que ele morreu, ficou debaixo de fogo em Bakhmut. No seu funeral escreverei algo à parte, ainda não acredito que ele morreu, que já não está cá! Mas os heróis não morrem!», concluiu.


 

Advogado e brilhante aluno do Dínamo
 

Outro tributo chegou pela página de Olexandr Shovkovskyi, o histórico guarda-redes do Dínamo Kiev, que viveu mais de duas décadas na baliza. Hoje trabalha como deputado no município de Kiev.
 

«Que notícia terrível! Ele morreu defendendo o nosso país, contra os racistas insidiosos. Foi morto pela artilharia inimiga. Fizemos parte da mesma turma, era de longe o mais brilhante. Formou-se na escola do Dínamo com medalha de ouro. Depois fizemos o caminho juntos no futebol, ele até foi o primeiro a ganhar lugar na equipa de reservas», começou por contar Shovkovskyi.
 

«Podia escrever muita coisa, dizer muita coisa, mas fico-me por isto: sempre tratou tudo e todos com quem lidava com profissionalismo e responsabilidade», elogiou, carregando a mensagem com aura patriótica.
 

«Ele defendeu o nosso país, o nosso território e lutou pela nossa independência. E pela nossa liberdade! A liberdade que todos escolhemos. Não é algo que nos é dado ou que pode ser retirado. Estamos a lutar, dando a vida dos filhos e filhas da Ucrânia», disse, num discurso angustiado.

«Estamos a perder pessoas, precisamos desesperadamente de ajuda para a vitória do bom-senso sobre a loucura. Hoje sinto a tua falta! Lamento que a Ucrânia tenha perdido um dos seus melhores defensores. Os pais perderam um filho, a irmã perdeu um irmão e os filhos um pai», aferiu.
 

«Descansa em paz, a terra está contigo! Glória à Ucrânia, Glória à Nação, Glórias às Forças Armadas, Glória aos Heróis. E, definitivamente, Morte aos Inimigos», finalizou.
 

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