De campeão no Barcelona a fotógrafo

Espanha 04-12-2021 16:00
Por Pedro Cadima

Ernesto Valverde, 57 anos, é o treinador responsável pelos últimos títulos do Barcelona - nas duas épocas completas que fez nos catalães foi campeão espanhol, em 2017/2018 e 2018/2019. Teve a queda do comando a meio de 2019/2020 e se o Barcelona nunca mais se endireitou o técnico encarrilou por outro caminho, deixando de lado a pressão extenuante dos bancos para conviver com a paixão reconfortante da fotografia, onde fica por sua conta na criação, tratamento da imagem e na organização de um conceito.

Sem cobranças de adeptos, envolvendo-os, por sinal, no seu foco. Deixou de falar de futebol, decididamente avesso ao show mediático, mesmo que agora muitos se reprimam por o ter contestado enquanto timoneiro do Barça e solicitem a sua visão da hecatombe. De momento, preocupa-se unicamente com o manejo da sua máquina, preferindo material analógico, e recolhe feedback daqueles que estimam a visão da lente e a composição final.


 

Valverde saboreia a paragem, não tendo qualquer pressa de treinar…estimulado por aquilo que sempre foi uma vocação e uma razão de descoberta íntima. ‘Beste Aldea’ ou traduzindo de euskera ‘El Otro Lado’, é o nome da exposição de 24 fotografias, que arrancou o seu circuito no País Basco em programas culturais dos rivais Real Sociedad e do Athletic. Neste último, aliás, jogou e treinou Valverde, em momentos marcantes da sua carreira, sendo o clube ao qual tem uma relação mais familiar, devido a várias épocas como jogador e duas etapas como treinador, tendo alcançado uma Supertaça para os leões de Bilbao. Basco por acolhimento, pois nasceu na zona de Cáceres, o treinador teve a Catalunha como berço adotivo na fase em que mais se enamorou pela fotografia com sentido de arte, de procura de desconstrução pela objetiva de inquietudes ou assombros. Numa incessante busca de outra perspetiva.



 

«Gosto imenso de fotografar desde sempre. Quando era um jovem rapaz fazia fotos com uma câmara pequena, uma Olympus Pen. Fiz alguns cursos por correspondência, mas nada muito sério. Apenas quando fui contratado pelo Espanhol como jogador, ao ir para Barcelona decidi entrar no Institut d’Estudis Fotografics da Catalunha (IEFC) e comecei a estudar de forma mais ampla e séria a fotografia. Os conhecimentos absorvi-os enquanto jogador do Espanhol e do Barcelona», releva Ernesto Valverde em conversa exclusiva com A BOLA, percorrendo as quatro épocas em que atuou pelos clubes catalães, dividindo-se entre dois anos no Espanhol de Clemente e dois no Barça de Cruyff. Apesar da bem-sucedida carreira como avançado, o recheio artístico esteve sempre presente em Valverde. Desde criança. Mobilizado por impressões ou expressões desenvolvendo uma multitude de perceções.



 

«Sempre procurei retratar o que me era próximo. O meio envolvente, os meus amigos. Cada um tem a sua própria forma de ver as coisas e cada fotógrafo vai afinando a sua mira. Posso dizer que sempre pensei que me dedicaria à fotografia, acabando de jogar, mas quando se foi aproximando esse final fui-me interessando pelas coisas que fazem funcionar uma equipa. Depois é a história que se sabe, acabei de jogar e praticamente comecei a treinar. Todos sabem como o futebol nos suga e apaixona. Assim comecei nas categorias inferiores do Athletic.»

 

O treinador tem apresentado em vários espaços nobres a sua exposição com afamadas curadorias e vistosos padrinhos como David Trueba, realizador espanhol. E recolhendo louvores pela sua honestidade e sensibilidade de penetrar no futebol pelas catarses coletivas, mesmo em contextos de alta exigência. O trabalho é um resumo da ação do fotógrafo Valverde durante os anos em que treinou Athletic, Valência, Olympiakos e Barcelona. As fotos captam o fenómeno futebolístico, um diferente panorama e sublime aproximação às pessoas. A visão é transposta de forma expressiva e impactante a preto e branco.

 

«Resulta de um trabalho de 8 ou 9 anos, dentro dos quais nem sempre me consegui ocupar com a objetiva. Ser treinador é um trabalho muito stressante, nem sempre consegues desviar o teu foco. Não tenho qualquer intenção de registar adeptos ou claques, unicamente me interessa apanhar um momento único partindo de um diferente ponto de vista», explica, a propósito do seu trabalho incidir em instantes fotogénicos dentro de uma multidão, muitas vezes na febre e loucura da chegada do autocarro da equipa a um estádio. Na antecâmara de um jogo decisivo. Até porque Valverde numa recente entrevista explicou que viajar com Messi e Neymar numa comitiva se assemelhava a uma onda delirante tipo Beatles.

 

«Reflete no que é a celebridade e no que significa participar de algo comum entre dois lados de uma mesma situação, os jogadores e técnicos de um lado, os adeptos do outro lado», contextualiza o ex-técnico de Athletic, Barcelona e Espanhol, três clubes onde treinou e jogou.



 

«A minha posição é bastante privilegiada para retratar o que nos envolve. O problema é que perdi muitas oportunidades porque nem sempre posso utilizar a máquina e dou-me conta que, como treinador, estou muito exposto e muito centrado, sem margem para me distrair», reflete Ernesto Valverde, não se recordando, enquanto jogava, de ter suscitado gosto na fotografia a qualquer colega de balneário. «Nunca tive aliados nesse campo mas resultava-lhes curioso esse meu encanto pela fotografia», exprime Valverde, numa conclusão muito semelhante a outra figura do futebol espanhol, Gaizka Mendieta, DJ de música indie.

 

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