Do chumbo da OPA à detenção de Vieira. Sem títulos, incertezas adensaram-se na Luz

Desporto 08-07-2021 08:15

Foi em maio de 2019 que o SL Benfica celebrou o último de campeão nacional. Desde aí, não tem sido fácil o percurso de Luís Filipe Vieira. Do chumbo da OPA da Benfica SGPS à SAD em junho de 2020 à detenção do presidente do clube da Luz, conheça as polémicas que marcam estes meses na vida do dirigente.

José Carlos Lourinho

Maio de 2019. Depois de uma recuperação sensacional, o SL Benfica treinado por Bruno Lage recuperou uma diferença pontual de sete pontos para o FC Porto, fez a melhor segunda volta da história do futebol português e conquistou o título de campeão nacional, no campeonato apelidado de “Reconquista”. No final desta liga, mais um recorde: a maior venda de sempre de um clube nacional. O avançado João Félix deixava o Benfica e recheava os cofres da Luz com 126 milhões de euros, numa operação financeira nunca vista em Portugal e que conferia à SAD um ‘músculo financeiro’ difícil de superar.

Na época seguinte, os ‘azuis e brancos’ “deram o troco” aos rivais. Recuperaram de uma desvantagem de sete pontos para o SL Benfica e sagraram-se campeões nacionais, num ato atípico de alguma instabilidade no Dragão, com Sérgio Conceição a colocar o lugar à disposição.

Em pouco menos de dois meses, o SL Benfica entrou num turbilhão de acontecimentos que colocaram em causa o futuro da direção e a redefinição do projeto desportivo. Se no início de maio de 2020, a CMVM colocou uma ‘pedra’ em definitivo no tema da OPA do Benfica, as más notícias continuaram em junho desse ano. Com a retoma da Liga vieram as derrotas, um novo fosso para o FC Porto, a demissão do treinador e uma incerteza face às eleições de outubro desse ano.

“Vício” chumbou OPA do Benfica

A 8 de maio de 2020, a CMVM colocou um ponto final num processo que se arrastou durante sete meses, entre pedidos de esclarecimento e contactos com acionistas por parte do regulador. A Operação Pública de Aquisição da Benfica SGPS à Benfica SAD foi indeferida sendo que o regulador justifica essa decisão na “existência de um vício que afeta a legalidade da oferta, decorrente da estrutura de financiamento de contrapartida, extingue o procedimento iniciado com o pedido apresentado a esta Comissão a 22 de novembro de 2019.

O pedido de registo de oferta pública voluntária e parcial de aquisição implicava até 6.455.434 ações emitidas pela Sport Lisboa e Benfica – Futebol SAD, anunciada preliminarmente pela Sport Lisboa e Benfica, SGPS, SA (“Oferente”) a 18 de novembro de 2019.

Fundamentou a CMVM que, pelo que pode analisar nos últimos meses relativamente a esta oferta, “os fundos que o Oferente pretendia utilizar para liquidação da contrapartida tinham, de forma não permitida pelo Código das Sociedades Comerciais, origem na própria Sport Lisboa e Benfica – Futebol SAD, sociedade visada por esta Oferta Pública de Aquisição”.

“Esse resultado decorreu da definição e implementação de uma relação contratual entre entidades sujeitas ao domínio comum do Sport Lisboa e Benfica (Clube), que foi temporalmente coordenada e subordinada ao objetivo de permitir a esta entidade reforçar, através da Sport Lisboa e Benfica, SGPS, SA, a sua posição de controlo sobre a Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD, com fundos provenientes desta sociedade cotada pela aquisição das ações para o efeito necessárias através da oferta em causa”, esclarece o regulador.

Vitória… só nas eleições

A 29 de outubro do ano passado, Luís Filipe Vieira foi reeleito para a presidência do Benfica, para o sexto mandato, ao somar mais votos e mais votantes, em todos os escalões, no sufrágio mais participado de sempre do clube, ocorrido na quarta-feira. De acordo com os resultados do ato eleitoral, anunciados pelo presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube, Virgílio Duque Vieira, Luís Filipe Vieira, que lidera os ‘encarnados’ desde 2003, somou 471.660 votos (62,59%), correspondentes a 22.787 votantes (59,8%).

Nas eleições mais participadas de sempre, em que 38.102 sócios exerceram o direito de voto, para um total de 753.578 votos, o número alcançado pelo presidente ‘encarnado’ supera, em mais de uma centena o total de votantes do anterior sufrágio mais participado (22.676), que remontava à vitória de Vieira sobre Rui Rangel, em 2012.

Destas eleições, emergiu um novo líder da oposição no Benfica: João Noronha Lopes, candidato que conquistou 261.574 votos, uma percentagem que surpreendeu na noite eleitoral: 34,71%. Oposição do Benfica tem apontado que Luís Filipe Vieira tem usado o clube para resolver os seus negócios pessoais.

Audição às perdas do Novo Banco

Depois do pedido de adiamento, Luís Filipe Vieira marcou presença no Parlamento para ser ouvido na Comissão Parlamentar de Inquérito às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução no âmbito das audições que os deputados estão a fazer aos grandes devedores do banco.

Numa das declarações mais sonantes desta audição, o presidente do Benfica disse aos deputados que foram os bancos que quiseram, no início dos anos 2000, que fosse para o clube da Luz devido à sua situação financeira. “A minha ida para o Sport Lisboa e Benfica não é apenas uma vontade e um orgulho da minha parte. Foi também um pedido de várias instituições financeiras” que estavam “interessadas na viabilização” do clube.

O líder máximo do Benfica disse ainda que investiu quase tudo o que tinha na Promovalor, grupo que deixou de acompanhar a tempo inteiro quando assumiu a liderança do Benfica. “Investi no grupo Promovalor quase tudo que até então tinha amealhado com o meu trabalho”, disse acrescentando que o grupo foi criado com 35 milhões de euros de capitais próprios. “Foi dinheiro meu e não dos bancos”, frisou adiantando que a Promovalor tinha ativos acima de 754 milhões em 2011, antes da crise.

Detenção de Vieira

Luís Filipe Vieira foi detido esta quarta-feira pelas autoridades. O presidente do Benfica encontra-se detido no Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, em Moscavide e pode ser ouvido ainda hoje no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP). As buscas foram realizadas pela Autoridade Tributária (AT) e pelo DCIAP.

Em causa estão suspeitas de crimes de burla qualificada ao Fundo de Resolução bancária e ainda crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitalismo e de abuso de confiança em relação ao próprio Benfica , segundo revelou hoje o “Nascer do Sol”.

 

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