A paixão pelo desporto e a história de uma cultura (artigo de Vítor Rosa, 172)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 11-10-21 3:34
Por Vítor Rosa

Na Grécia Antiga, a prática da ginástica foi considerada essencial para a saúde e para a formação dos cidadãos. A proeza atlética era celebrada pelos poetas, pelos escultores e pelo conjunto da Cidade. Concebidos pelos melhores arquitetos, nos estádios e ginásios havia a função estratégica no espaço público. Ao se ressuscitar os Jogos Olímpicos (JP), em Atenas, em 1896, Pierre de Coubertin testemunha a importância que ele associava do desporto moderno com a Antiguidade.

Hoje, os JO assumiram uma dimensão mundial e o desporto teve um desenvolvimento extraordinário, ao ponto de se tornar um fato social da maior importância e incarnar a moral e os valores coletivos. O lugar que o desporto ocupa na sociedade manifesta-se no papel educativo, na importância e diversidade das práticas desportivas ou ainda através do fervor que suscita. O enorme peso do desporto na vida social suscita questões relativamente ao seu financiamento, ao respeito de regras éticas e às expetativas que levanta em termos de integração e coesão nacional.

O desporto, pela sua natureza, é fonte de emoções individuais e coletivas, o que explica a popularidade dos espetáculos desportivos. Local por excelência da relação singular entre o público e os atletas, o estádio tem sido objeto de análises sociológicas, que o descrevem como um espaço de consenso, mas também de diferenciação cultural e social. A presença dos fãs, que procuram apoiar o seu atleta preferido ou a sua equipa, é um fator do ambiente próprio que se vive nos encontros desportivos. Se o desporto cristaliza todas as paixões e incita aos excessos, ele coloca em perigo os fundamentos éticos quando se pretende sempre ir mais longe na “corrida” da performance.

O combate para se preservar o ideal desportivo começa na escola, com a educação física, levando a que todas as crianças e jovens aprendam a conhecer os limites do seu corpo, a não fazer batota e a respeitar as regras. O desporto exige uma cooperação internacional, um compromisso sem falhas dos Estados e do movimento desportivo mundial, e a colocar-se em prática rigorosos procedimentos para garantir o respeito do direito e da ética no desporto.

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa